Remake de ‘Quarto do pânico’ com Isis Valverde chega ao streaming
Versão brasileira do thriller de David Fincher tem direção de Gabriela Amaral Almeida e aborda a violência como problema sistêmico do Brasil
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Mais do que revisitar um thriller de sucesso dos anos 2000, Gabriela Amaral Almeida (“O animal cordial”) pretende transformar “O quarto do pânico” em estudo sobre a violência como estrutura, e não apenas como incidente.
Se no original de 2002, dirigido por David Fincher, o suspense era conduzido como um jogo estratégico de ataque e defesa, na releitura brasileira – batizada como “Quarto do pânico” e disponível no Telecine via Globoplay e Prime Video –, o medo ganha contornos sociais e simbólicos, atravessado por questões de gênero e pela brutalidade cotidiana que marca o Brasil.
Quando estreou, há 24 anos, "O quarto do pânico" foi sucesso comercial, arrecadando US$ 196 milhões no mundo. Parte da crítica considerou a trama simples e os personagens pouco aprofundados, mas reconheceu o rigor formal de Fincher ao organizar a narrativa como um duelo quase matemático entre invasores e vítimas.
Na história original, Meg Altman (Jodie Foster) se refugia com a filha Sarah (Kristen Stewart) em um cômodo blindado de sua nova casa, após a invasão de três criminosos interessados em uma fortuna escondida ali. O filme se constrói, então, na tensão entre dentro e fora, controle e vulnerabilidade, justamente o que interessou a diretora brasileira.
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Masculino x feminino
“Uma série de fatores me fez querer fazer este filme”, disse ela, durante coletiva de imprensa virtual. “A primeira delas tem a ver com os temas, que me interessam muito, sobretudo o embate entre o masculino e o feminino, e a questão da maternidade – como você é mãe em situações extremas”, afirmou.
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“O outro fator é que eu gosto de me aproximar de um filme canônico e tentar extrair dele a seiva, o que faz a história ser o que potencialmente ela é para além dos efeitos especiais e do orçamento inflado característico de uma produção hollywoodiana”, cita.
Na adaptação, estrelada por Isis Valverde e Marianna Santos, a violência deixa de ser apenas circunstancial, sendo uma constante na vida da protagonista. Logo na abertura, Mari (Isis Valverde) se muda com a filha Bel (Marianna Santos) após o assassinato do marido em uma tentativa de assalto. O trauma, no entanto, é anterior à invasão. E o medo já estava presente naquela família antes mesmo de os criminosos chegarem.
A arquitetura também diz muito. Em vez do casarão antigo do longa original, a casa agora é uma mansão contemporânea de condomínio fechado — linhas retas, grandes painéis de vidro, integração com a natureza e sistemas automatizados de segurança. Há câmeras dentro e fora de casa, o que não impede a ação dos bandidos.
Invasão
O roteiro adaptado por Fábio Mendes, no entanto, se mantém fiel à estrutura central do filme de Fincher, inclusive com diálogos traduzidos para o português. Três homens (vividos por Marco Pigossi, Caco Ciocler e André Ramiro) invadem a residência em busca do dinheiro escondido pelo antigo proprietário.
Mas, se no longa americano o conflito se desenrola como um jogo de xadrez preciso, na releitura brasileira ele ganha outra camada simbólica. “Há ali uma invasão do feminino pelo masculino”, observa Isis Valverde.
“Eu e a Gabi (Amaral Almeida) trabalhamos muito com essa metáfora de que a casa era o feminino e o quarto representava o útero, onde essa mulher gerava de novo a relação com a própria filha”, acrescenta a atriz.
A construção dessa dinâmica não foi improvisada. O elenco passou por ensaios em uma sala fechada que reproduzia o ambiente claustrofóbico do set. “Foi uma ideia muito sagaz da Gabi, porque, se ela tivesse soltado a gente no set sem que tivéssemos criado esse jogo, o filme teria naufragado”, afirma Caco Ciocler. “Foi nessa sala de ensaio que a gente pôde, principalmente, errar”.
O resultado é um filme que preserva o esqueleto do thriller original, mas desloca seu centro de gravidade. Em vez de apenas testar os limites psicológicos das personagens, “Quarto do pânico” questiona a própria ideia de proteção em um país onde a violência não é exceção, é sim parte do cotidiano.
O cômodo blindado deixa de ser apenas recurso narrativo para se tornar metáfora de um Brasil que tenta se isolar do que o cerca, mas descobre que nenhuma parede é completamente imune às fissuras do mundo exterior.
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“QUARTO DO PÂNICO”
(Brasil, 2025, 98 min.). Direção: Gabriela Amaral Almeida. Com Isis Valverde, Marianna Santos, Caco Ciocler, Marco Pigossi e André Ramiro. Classificação: 16 anos). Disponível no Telecine Play, via Globoplay e Prime Video.