O fim da poesia do voto nulo
Do Macaco Tião ao six seven, o voto ganhou segurança e perdeu graça. Mas a geração alfa dá um jeito de fazer poesia com números
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A programação do rádio no caminho para a escola é uma deliciosa faísca para novas conversas com Luca, meu filho de 8 anos. Nesses tempos em que cada vez menos as pessoas compartilham repertório, até propaganda eleitoral vira pauta:
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– Papai, existe algum partido com o número 67? – me perguntou ele com uma risadinha de quem queria farmar aura.
Retribuí o sorriso e arrisquei que não. Depois, até pesquisei e descobri que estava enganado: em 1990 houve um tal de PNT, sigla efêmera que durou menos de um ano.
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– Então o 67 está livre? Como eu posso criar um partido? – a irreverência virava uma curiosidade real.
Então expliquei que seria preciso conseguir centenas de milhares de assinaturas de apoio pelo país afora. Mas, antes disso, ele precisaria criar um programa para o partido.
– Isso é fácil. O partido vai defender a natureza, lutar contra o racismo, combater a desigualdade... – o aspirante a candidato se mostrava bem eloquente em suas propostas.
No dia seguinte, o rádio do carro anunciava mais um resultado de pesquisa eleitoral. Após a apresentação de todos os percentuais, veio a dúvida:
– Pai, o que são votos nulos? – com cara de indignado, como se fosse alguma injustiça com o eleitor.
Expliquei que nulos seriam os votos digitados na urna sem que o número correspondesse a algum candidato ou partido registrado. Ele logo concluiu que todo mundo que votasse six seven (o meme que virou gíria, sem que ninguém explicasse direito) iria para o balde da nulidade.
Nulidade simbólica, inclusive. Porque aí caiu a minha ficha de que o avanço tecnológico do voto eletrônico fechou uma fresta criativa por onde entrava a luz das mobilizações populares na urna. Dificilmente veremos de novo um fenômeno cultural como o Macaco Tião, com cerca de 400 mil votos na eleição para prefeito do Rio, cuidadosamente manuscritos nas cédulas de papel em 1988. Tião nunca foi candidato e seus votos, obviamente, não valeram, mas ele representava o imaginário da população carioca.
Para quem não gostava de nenhum candidato e não queria protestar, havia o voto em branco. O nulo era o lugar da galhofa, uma subversão segura, onde o uso do chiste comunicava o espírito do tempo da sociedade.
Hoje o voto nulo perdeu a alma. É uma categoria estatística que não dá vida ao protesto intencional. Não há onde escrever nada. Do alfanumérico, restaram só os números. Ainda assim, o 67 seria um exemplo de expressão cultural que teria força em tempos de tanta sistematização de dados. Só que cairia na contabilização genérica porque um número sem candidatura correspondente não seria contado à parte.
O meme das novas gerações não sairia nas capas dos jornais – ou nos carrosséis das redes. Desapareceria na soma total de votos nulos. Talvez seja uma bobagem pensar nisso. Mas é sintoma da falta de graça na política atual, onde sobra ruído e falta leveza.
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Deus me livre voltar ao papel. A urna eletrônica é segura, rápida e auditável. Enquanto o mundo fica vidrado em dados, a geração alfa também quer significado. E, se só tiver números à mão, vai fazer poesia com eles.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.