Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

O corpo do atleta de 45 anos não é o mesmo dos 25

A articulação não necessariamente está "gasta demais" para o esporte, mas tolera menos mudanças bruscas

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Muita gente volta a correr, pedalar, nadar ou treinar força depois dos 40 com uma sensação curiosa: a cabeça lembra perfeitamente do que o corpo fazia aos 25. A memória da velocidade, da força e da recuperação continua viva, mas o organismo já responde de outro jeito. Isso não significa que o corpo esteja “velho” ou incapaz. Significa apenas que o treinamento precisa respeitar uma nova realidade fisiológica.

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Aos 40 ou 50 anos, o atleta ainda pode evoluir muito, melhorar tempo, ganhar força e competir em alto nível recreacional. O problema surge quando ele tenta retomar exatamente a mesma lógica de treino que usava décadas antes. Tendões demoram mais para se adaptar, a recuperação entre sessões tende a ser mais lenta e pequenas sobrecargas acumuladas passam a cobrar um preço maior. O entusiasmo volta rápido. A capacidade do tecido, nem sempre.

Isso explica por que vemos tantos adultos ativos entrando em um ciclo de lesões. A pessoa melhora o condicionamento cardiovascular em poucas semanas, sente que “voltou a ser quem era” e aumenta carga, volume e intensidade quase ao mesmo tempo. Só que coração e pulmão se adaptam mais rápido do que tendões, ossos e estruturas articulares. É possível sentir-se pronto antes de realmente estar pronto.

O tendão de Aquiles é um bom exemplo. Muitos pacientes entre 40 e 60 anos voltam a correr ou intensificam treinos depois de longos períodos de pouca atividade. A musculatura responde, a disposição aumenta e o ritmo melhora. Mas o tendão, que passou anos recebendo menos estímulo, precisa de uma progressão mais cuidadosa. É justamente nesse grupo que começam a aparecer tendinopatias e, em situações mais graves, rupturas.

O mesmo vale para joelhos, quadris e pés. A articulação não necessariamente está “gasta demais” para o esporte, mas tolera menos mudanças bruscas. A diferença não está apenas na idade cronológica. Está no histórico de atividade, no peso, no sono, na força muscular, nas lesões anteriores e no quanto aquela pessoa manteve o corpo ativo ao longo dos anos.

Existe também um fator que raramente entra no planejamento: a vida ao redor do treino. Aos 25 anos, muita gente consegue dormir mais, tem menos responsabilidades e se recupera melhor de uma sessão intensa. Aos 45, o treino disputa espaço com trabalho, filhos, viagens, reuniões, estresse e noites mal dormidas. O organismo não separa essas coisas. Para ele, tudo entra na conta da recuperação.

Por isso, treinar melhor aos 45 não significa necessariamente treinar menos. Significa escolher melhor onde gastar energia. Em vez de tentar fazer todos os treinos fortes, pode ser mais inteligente combinar sessões intensas com dias realmente leves. Em vez de aumentar volume e velocidade ao mesmo tempo, progredir uma variável de cada vez. Em vez de ignorar força e mobilidade, incluí-las de forma planejada.

A musculação, aliás, ganha ainda mais importância nessa fase. Depois dos 40, preservar massa e força muscular passa a ser um investimento tanto em performance quanto em longevidade. Músculo protege articulações, melhora potência, ajuda na corrida e reduz risco de perda funcional no futuro. Para o atleta amador, não deveria ser visto apenas como complemento, mas como parte do treinamento.

Há ainda uma mudança importante de objetivo. Aos 25, performance pode significar simplesmente fazer mais, mais rápido e mais forte. Aos 45, performance precisa incluir continuidade. Não adianta treinar muito bem por três meses e passar os três seguintes tratando uma lesão. O melhor programa é aquele que permite acumular anos de exercício, não apenas semanas de intensidade.

Isso é especialmente relevante porque muita gente começa a praticar esporte mais seriamente justamente nessa fase da vida. Depois de estabilizar carreira, família e rotina, surge espaço para correr uma meia maratona, pedalar longas distâncias, fazer triatlo ou competir em provas de alta intensidade. E isso é excelente. O problema não é começar aos 40 ou 50. O problema é querer comprimir em poucos meses uma adaptação que deveria levar anos.

O corpo maduro também tem vantagens. Há mais disciplina, melhor capacidade de planejamento, maior conhecimento dos próprios limites e, muitas vezes, mais consistência. Um atleta de 45 anos pode não se recuperar como aos 25, mas pode treinar de maneira muito mais inteligente. E essa diferença conta.

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O corpo de 45 anos não é o mesmo dos 25. Ainda bem. Ele carrega mais história, mais experiência e também mais responsabilidade. E, para quem quer continuar correndo, pedalando, nadando ou treinando aos 60 e 70, talvez essa seja a verdadeira vitória: não fazer tudo como antes, mas continuar fazendo por muitos anos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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