Será que o tênis perfeito existe?
O que existe é um tênis adequado para uma pessoa, em determinado momento, para determinada atividade, dentro de determinado contexto
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Poucos objetos receberam tanta responsabilidade nos últimos anos quanto o tênis. Ele deixou de ser apenas um calçado esportivo e passou a ocupar quase o lugar de equipamento médico, amuleto de performance e promessa de prevenção de lesões. Há tênis para pronadores, supinadores, corredores leves, corredores pesados, maratonistas, iniciantes, trilheiros, caminhantes, pessoas com dor no joelho, pessoas com fascite plantar, pessoas com artrose e pessoas que simplesmente querem “proteger as articulações”.
A pergunta aparece com frequência no consultório: “Doutor, qual é o melhor tênis para mim?”. Por trás dela, existe quase sempre uma expectativa compreensível. O paciente quer uma solução objetiva. Uma marca confiável. Algo que resolva ou pelo menos reduza o risco de dor. O problema é que o corpo humano raramente aceita respostas tão simples.
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O tênis importa, claro. Seria ingênuo dizer o contrário. Um calçado inadequado pode piorar sintomas, aumentar desconforto, favorecer bolhas, comprimir os dedos, irritar tendões ou tornar a caminhada mais desagradável. Pacientes com artrose, metatarsalgia, fascite plantar, deformidades nos dedos ou alterações importantes da pisada podem se beneficiar muito de um calçado mais estável, confortável e adequado ao formato do pé. Mas isso é diferente de acreditar que existe um tênis perfeito. Não existe.
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O que existe é um tênis adequado para uma pessoa, em determinado momento, para determinada atividade, dentro de determinado contexto. Essa diferença parece pequena, mas muda tudo. Um tênis excelente para correr 10 km no asfalto pode ser ruim para trabalhar em pé o dia inteiro. Um modelo confortável para caminhada pode ser instável para trilha. Um tênis macio demais pode agradar no primeiro teste e incomodar depois de semanas. Um tênis firme demais pode proteger uma articulação e irritar outra.
A indústria esportiva entendeu muito bem nossa busca por respostas fáceis. Por isso, a cada ano surgem novas espumas, placas, geometrias, tecnologias de amortecimento, solados inteligentes e promessas de retorno de energia. Algumas inovações são reais e melhoraram muito a experiência de atletas e corredores. Outras são apenas formas mais sofisticadas de vender a ideia de que existe um produto capaz de compensar fragilidades do corpo.
O problema é que lesão não nasce apenas do tênis; nasce de carga, adaptação, força muscular, mobilidade, sono, peso corporal, técnica, histórico prévio, anatomia e pressa. O tênis é uma peça desse quebra-cabeça, não o quebra-cabeça inteiro.
Isso é especialmente importante na corrida. Muitas pessoas começam a correr depois de anos de sedentarismo e compram um tênis caro acreditando que isso será suficiente para protegê-las. Mas o corpo não se adapta ao impacto por causa da marca no pé. Ele se adapta com progressão gradual, fortalecimento, recuperação e consistência.
Durante muito tempo, falou-se bastante em “tipo de pisada”. O corredor fazia um teste, descobria se era pronador, supinador ou neutro, e saía da loja com um tênis supostamente indicado para aquela categoria. Essa lógica ajudou algumas pessoas, mas também foi simplificada demais. A pronação não é necessariamente um defeito. É um movimento natural do pé, importante para absorção de impacto. O problema não é pronar. O problema pode ser pronar demais, rápido demais, sem controle muscular adequado ou em associação com dor e sobrecarga. Da mesma forma, nem todo mundo que tem pé plano precisa de tênis de controle de movimento. Nem todo mundo com pé cavo precisa de amortecimento máximo. Nem toda dor no joelho será resolvida mudando de calçado.
Outro ponto pouco discutido é o conforto. Parece simples, mas é um dos critérios mais importantes. Um tênis que parece tecnicamente perfeito, mas incomoda o paciente, provavelmente não é uma boa escolha. O pé precisa de espaço, especialmente na região dos dedos. Muitos problemas surgem porque as pessoas usam calçados estreitos demais, comprimindo antepé, unhas e articulações. Para quem tem joanete, dedos em garra, neuroma de Morton ou calosidades, a largura da parte da frente do tênis pode ser mais importante do que qualquer tecnologia anunciada no solado.
Para pacientes com dor, a escolha precisa ser ainda mais individualizada. Na fascite plantar, muitos se sentem melhor com tênis mais estruturados, bom suporte no retropé e algum amortecimento. Em quadros de metatarsalgia, pode ser útil um calçado com solado menos flexível na frente e boa distribuição de carga. Em artrose do tornozelo ou do mediopé, solados mais rígidos ou com leve balanço podem reduzir o movimento doloroso durante a marcha. Mas essas orientações dependem do diagnóstico. Comprar um tênis caro sem saber a origem da dor é, muitas vezes, apenas uma aposta elegante.
Então, como escolher?
A resposta menos glamourosa costuma ser a mais honesta: escolha um tênis confortável, adequado à atividade, compatível com o formato do seu pé e coerente com seu histórico de dor ou lesão. Ele deve permitir espaço para os dedos, segurar bem o calcanhar, não gerar pontos de pressão e oferecer estabilidade suficiente para o seu tipo de uso. Para corrida, a transição entre modelos muito diferentes deve ser gradual. Para quem tem doença específica, deformidade ou dor persistente, a escolha deve fazer parte do tratamento, não substituir a avaliação médica.
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O tênis perfeito, portanto, não está na prateleira. Ele não é universal e não resolve sozinho problemas que nasceram de meses ou anos de sobrecarga. O melhor tênis é aquele que conversa bem com o seu corpo, com sua rotina e com o que você exige dos seus pés.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
