Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

Hormônios e o risco de lesões musculoesqueléticas

Microlesões são ignoradas, o descanso é negligenciado, a recuperação não é respeitada. E quando os sinais aparecem, muitas vezes já é tarde

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O uso de hormônios para fins terapêuticos é, muitas vezes, necessário e eficaz. Mas o uso abusivo, sobretudo em busca de ganhos estéticos e de performance, está se tornando uma bomba-relógio para músculos, tendões, ossos e articulações. Nos bastidores de academias, competições esportivas e clínicas de estética, um tema vem ganhando espaço – e preocupação: o uso de hormônios anabolizantes, como testosterona, GH (hormônio do crescimento), insulina e IGF-1. Em um mundo que exalta resultados rápidos, corpos definidos e alto desempenho, essas substâncias parecem o atalho ideal. Mas o que muitos não sabem – ou preferem ignorar – é que a conta chega. E ela vem na forma de lesões, degenerações articulares, dores crônicas e cirurgias complexas.

Hormônios são substâncias químicas produzidas pelo organismo para regular diversas funções vitais, incluindo o metabolismo, a reprodução, o crescimento e a regeneração tecidual. A testosterona é o principal hormônio androgênico masculino, presente também em pequenas quantidades nas mulheres. Ela tem papel fundamental no desenvolvimento muscular, na síntese proteica e no equilíbrio entre anabolismo e catabolismo. Por isso, não é surpresa que ela tenha se tornado o carro-chefe entre os hormônios usados para fins de performance.

Esteroides anabolizantes, derivados sintéticos da testosterona, promovem ganhos rápidos de massa magra, força e definição corporal. Eles realmente funcionam. Mas o problema é que esse crescimento muscular acelerado não vem acompanhado de um fortalecimento proporcional dos tendões e ligamentos. Essa desproporção gera um corpo mais forte, porém estruturalmente mais frágil. É como colocar o motor de uma Ferrari em um chassi de fusca: em algum momento, algo vai quebrar.

As lesões mais frequentes entre usuários de anabolizantes são as rupturas de tendões – especialmente do peitoral maior, do bíceps e do tendão patelar. Essas lesões ocorrem frequentemente durante exercícios com carga elevada, como o supino ou o agachamento, e muitas vezes exigem cirurgia e longos períodos de reabilitação. Há também relatos crescentes de fraturas por estresse, decorrentes da diminuição da densidade óssea associada ao uso prolongado de esteroides.

GH: o “hormônio da juventude” que pode envelhecer suas articulações

O hormônio do crescimento (GH), ou somatotrofina, é outro queridinho entre aqueles que buscam ganhos rápidos. Naturalmente produzido pela hipófise, ele é essencial no crescimento na infância e adolescência, mas também atua na renovação celular e no metabolismo em adultos.

Seu uso clínico, em casos de deficiência diagnosticada, pode ser extremamente benéfico. No entanto, quando usado em doses elevadas e fora do contexto médico, os riscos se acumulam. O GH estimula não apenas o crescimento muscular, mas também o crescimento de tecidos moles e ósseos. O uso crônico e abusivo pode levar à acromegalia – condição caracterizada pelo crescimento anormal das mãos, pés, face e, mais preocupantemente, das articulações.

 

O corpo que engana


O uso de hormônios pode provocar uma espécie de “falsa saúde”. A pessoa se sente mais forte, com mais energia, menos dor e maior disposição. Mas, internamente, o corpo pode estar operando no limite. Microlesões são ignoradas, o descanso é negligenciado, a recuperação não é respeitada. E quando os sinais aparecem, muitas vezes já é tarde.

O mais perigoso é que o aspecto estético costuma ser enganoso. Músculos volumosos passam a ideia de força e estabilidade, mas isso nem sempre corresponde à realidade funcional do corpo. O sistema musculoesquelético é uma engrenagem que depende do equilíbrio entre músculos, tendões, ligamentos, cápsulas articulares e estruturas ósseas. Quando um cresce demais e os outros não acompanham, a chance de falha é enorme.

Lesões associadas ao uso de hormônios

As lesões musculoesqueléticas associadas ao uso hormonal seguem padrões bem definidos. Entre as mais comuns estão:

- Rupturas tendíneas: bíceps, peitoral maior, tendão patelar, tendão de Aquiles

- Fraturas por estresse: comuns em corredores e atletas de impacto que usam hormônios para acelerar recuperação

- Osteoartrite precoce: associada ao uso de GH e ao desequilíbrio articular provocado por hipertrofia muscular desproporcional

- Síndromes compartimentais: devido ao crescimento muscular excessivo sem adaptação fascial

- Tendinites e fascites crônicas: causadas por sobrecarga e má regeneração dos tecidos

Essas lesões não apenas afastam o indivíduo da prática esportiva, como podem gerar incapacidades duradouras e exigir procedimentos cirúrgicos complexos.

A cultura do atalho

A pressão estética, o culto ao corpo perfeito e a valorização do desempenho extremo criaram uma cultura do atalho. Em vez de buscar saúde e performance com consistência, descanso e treinamento inteligente, muitos preferem caminhos rápidos – e perigosos.

O problema é que o corpo tem limites. E ele cobra caro quando esses limites são ultrapassados. A verdadeira performance vem do equilíbrio entre estímulo, recuperação e adaptação. O uso de hormônios pode até acelerar processos, mas, se mal conduzido, também acelera o desgaste e as lesões.

No final das contas, a integridade do sistema musculoesquelético depende mais da inteligência do que da força. Cuidar do corpo é um investimento a longo prazo. E os atalhos, quase sempre, levam a becos sem saída.

Seu corpo fala. Ouça antes que ele grite.

Quer mais dicas sobre esse assunto? Acesse: www.tiagobaumfeld.com.br ou siga @tiagobaumfeld

 

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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