
Problemas ortopédicos na gravidez
Pequenos ajustes no dia a dia podem ter um grande impacto no bem-estar ortopédico durante a gravidez
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A gravidez é um período de profundas transformações no organismo da mulher, e muitas dessas mudanças podem afetar a saúde musculoesquelética. Os problemas ortopédicos durante a gestação, embora comuns, são muitas vezes subestimados ou mal compreendidos, podendo gerar desconforto significativo e impactar a qualidade de vida da gestante.
Transformações na gravidez e seus impactos
Durante a gravidez, o corpo feminino sofre uma série de adaptações para acomodar o crescimento do feto. Entre as alterações mais notáveis estão o aumento de peso, a modificação do centro de gravidade e a liberação de hormônios que promovem o relaxamento dos ligamentos, como a relaxina. Esses fatores, isoladamente ou em conjunto, podem predispor a gestante a uma série de problemas ortopédicos.
O aumento de peso implica uma maior sobrecarga nas articulações, especialmente na coluna vertebral, quadris, joelhos e tornozelos. Essa sobrecarga, aliada à alteração no centro de gravidade, pode causar mudanças posturais, contribuindo para dores lombares e instabilidade na marcha. Além disso, a relaxina age para facilitar o parto, mas ao mesmo tempo reduz a estabilidade das articulações, aumentando o risco de lesões e dores articulares.
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Problemas ortopédicos comuns na gravidez
1. Dor lombar
A dor lombar é uma das queixas mais frequentes entre as gestantes. Ela pode surgir devido à combinação do aumento de peso, alterações posturais e à perda de estabilidade articular decorrente do efeito da relaxina. A lordose acentuada (curvatura exagerada da região lombar) é uma compensação natural para manter o equilíbrio, mas pode resultar em tensão excessiva nos músculos e ligamentos da região, levando a desconfortos e até a episódios de dores crônicas.
2. Dor pélvica
Outro problema ortopédico comum é a dor pélvica, que pode se manifestar como desconforto na região das articulações sacroilíacas e na sínfise púbica. A instabilidade pélvica pode se manifestar de forma mais intensa à medida que a gestação avança, devido ao aumento da mobilidade das articulações pélvicas e ao relaxamento dos tecidos que as sustentam. Essa condição pode dificultar a locomoção e interferir nas atividades diárias, sendo importante a identificação precoce para o manejo adequado.
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3. Síndrome do túnel do carpo
Embora seja uma condição associada principalmente a esforços repetitivos, a síndrome do túnel do carpo também é bastante observada em gestantes. O inchaço e a retenção de líquidos, características comuns da gravidez, podem aumentar a pressão no túnel do carpo, onde o nervo mediano passa pelo punho, causando dormência, formigamento e, em casos mais graves, dor irradiada para o braço. O manejo dessa síndrome durante a gravidez envolve tanto medidas conservadoras quanto adaptações ergonômicas.
4. Alterações nos pés
Com o aumento do peso e a possível retenção de líquidos, os pés e tornozelos também sofrem alterações. O inchaço pode levar a uma sensação de peso e desconforto, além de aumentar o risco de entorses e lesões. A mudança no arco plantar, que pode ocorrer de forma temporária, também contribui para a instabilidade e o aparecimento de dores.
Fatores contribuintes:
Alterações hormonais
O papel dos hormônios, especialmente a relaxina, é fundamental na compreensão dos problemas ortopédicos na gravidez. Este hormônio tem como função principal preparar o corpo para o parto, promovendo o relaxamento dos ligamentos e facilitando a passagem do bebê pelo canal de parto. No entanto, essa diminuição da rigidez ligamentar pode comprometer a estabilidade articular, deixando as estruturas musculoesqueléticas mais vulneráveis a lesões e sobrecargas.
Mudanças posturais e biomecânicas
O deslocamento do centro de gravidade e as mudanças posturais desempenham um papel crucial na geração de dores e desconfortos. Para compensar o peso extra e manter o equilíbrio, a gestante tende a adotar posturas que podem sobrecarregar a região lombar e pélvica. Essa adaptação, embora necessária, pode resultar em desequilíbrios musculares e tensões excessivas, levando a quadros de dor crônica.
Impacto do aumento de peso
O aumento de peso é uma das principais demandas biomecânicas impostas pelo período gestacional. Cada quilo adicional implica uma maior carga sobre as articulações e músculos, principalmente na coluna, quadris e joelhos. Esse fator contribui para a degeneração precoce de algumas estruturas e para a fadiga muscular, elementos que potencializam a ocorrência de problemas ortopédicos.
Fatores psicossociais
Além dos aspectos físicos, fatores psicossociais também podem influenciar a percepção e a intensidade da dor. O estresse, a ansiedade e a preocupação com a saúde do bebê podem aumentar a sensibilidade à dor e comprometer a capacidade de lidar com os sintomas, intensificando o impacto dos problemas ortopédicos na qualidade de vida da gestante.
Manejo e tratamento
Na maioria dos casos, o manejo dos problemas ortopédicos durante a gravidez é realizado por meio de tratamentos conservadores, que visam aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida da gestante sem recorrer a intervenções invasivas. Entre as medidas adotadas, destacam-se:
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Fisioterapia: a fisioterapia desempenha um papel central no tratamento dos desconfortos ortopédicos na gravidez. Técnicas de fortalecimento muscular, alongamento e reeducação postural podem reduzir significativamente a intensidade das dores, além de melhorar a estabilidade e a mobilidade. A orientação para a prática de exercícios específicos e a utilização de faixas e cintas de suporte também são estratégias eficazes.
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Exercícios de baixo impacto: atividades físicas de baixo impacto, como caminhadas, hidroginástica e yoga pré-natal, ajudam a manter a musculatura ativa e a melhorar a circulação, aliviando a sobrecarga nas articulações e contribuindo para a manutenção de uma postura adequada.
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Terapias complementares: técnicas como acupuntura, massoterapia e quiropraxia têm sido utilizadas com sucesso para o alívio dos sintomas. Esses métodos, quando aplicados por profissionais qualificados, podem reduzir a dor e promover o relaxamento dos músculos e ligamentos tensionados.
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Uso de calçados adequados: o uso de calçados confortáveis e com bom suporte pode minimizar o impacto nos pés e tornozelos, prevenindo lesões e desconfortos que podem surgir do aumento de peso e da alteração na marcha.
Ajustes ergonômicos e de hábitos diários
Pequenos ajustes no dia a dia podem ter um grande impacto no bem-estar ortopédico durante a gravidez. Algumas recomendações incluem:
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Adaptação do ambiente de trabalho: gestantes que permanecem longos períodos sentadas devem ter cadeiras ergonômicas que suportem bem a região lombar. Pausas regulares para alongamento e pequenas caminhadas são essenciais para evitar a rigidez muscular.
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Cuidados com a postura: a conscientização sobre a postura correta é fundamental. Manter a coluna ereta, evitar curvar-se excessivamente e utilizar suportes lombares podem reduzir significativamente a incidência de dores.
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Organização das tarefas domésticas: dividir as tarefas diárias e evitar esforços excessivos são medidas importantes. Levantar objetos pesados deve ser evitado ou, quando necessário, realizado com cuidado, utilizando a técnica correta de levantamento, com os joelhos flexionados e a coluna em posição neutra.
Impactos na qualidade de vida
Os problemas ortopédicos durante a gravidez, embora comuns, podem ter um impacto significativo na rotina e na qualidade de vida da gestante. O desconforto físico, quando não tratado de forma adequada, pode limitar as atividades diárias, afetar o sono e até mesmo interferir no bem-estar emocional da mulher. Por isso, a identificação precoce e o manejo eficaz dessas condições são fundamentais.
É importante que as gestantes estejam atentas aos sinais do corpo e não hesitem em procurar ajuda profissional ao identificar sintomas persistentes ou intensos. A educação sobre as mudanças que ocorrem durante a gravidez e a conscientização sobre as possíveis complicações ortopédicas são medidas essenciais para a prevenção e o tratamento precoce.
Cada mulher experimenta a gravidez de forma única, e os problemas ortopédicos podem variar em intensidade e natureza. No entanto, com o acompanhamento adequado e a implementação de estratégias de prevenção – como a prática regular de exercícios, cuidados com a postura e uma alimentação equilibrada – é possível reduzir significativamente o impacto dessas alterações e promover uma gestação mais saudável.
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