Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
As vitórias presidenciais na Colômbia e no Peru não podem ser interpretadas da mesma forma. Na Colômbia, Abelardo de la Espriela é um novato de ultradireita e ultranacionalista que se elegeu carregado pelo descontentamento social e pelo antipetrismo. Ligado ao ex-presidente da direita radical Álvaro Uribe, a outra força por trás dele foi o uribismo, uma modalidade de populismo de direita, personalista e confrontacionista. La Espriela representa realmente a onda antissistema de extrema-direita que tem avançado no mundo Ocidental nascida da insatisfação com a incapacidade dos governos democráticos de darem respostas estruturais aos novos e velhos problemas do povo. Assemelha-se a Trump, Bolsonaro, Nigel Farage e Viktor Orbán.
Keiko Fujimori é de outra espécie de animal político. Ela é filha do ex-presidente Alberto Fujimori que acabou na prisão. Sua orientação, via fujimorismo é conservadora, punitivista, neoliberal e autoritária. É uma política tradicional, sua base social são os setores médios e conservadores urbanos e grupos empresariais.
O Peru é uma sociedade em crise crônica. A sociologia política do país mostra que a instabilidade peruana precede maus presidentes e a corrupção. Ela tem raízes profundas na desintegração das relações entre sociedade e sistema político, na incapacidade do estado de integrar a sociedade e na fratura territorial. O sociólogo Julio Cotler, em sua clássica análise da sociedade peruana, diz que o Peru é uma socidade de integração precária, com uma estrutura histórica de desigualdade, hierarquia e dominação na qual o Estado jamais conseguiu integrar plenamente a sociedade nacional. Ele vê um país formal, oligárquico e um país plebeu, andino, popular e subalterno incorporado de forma desigual à sociedade.
A análise de Cotler sugere para mim uma crônica instabilidade dos governos em que nenhum presidente consegue enfrentar a insatisfação desse enorme Peru informal. A instabilidade não é conjuntural é estrutural. A análise sociólogica não traz bom augúrio para Keiko Jujimori.
Leia Mais
A Colômbia também é desigual e fracionada, porém entre os setores urbanos integrados e polarizados e as áreas rurais campesinas. A sociedade colombiana recente aparece na análise sociológica como um país sem maiorias sólidas, com forte fragmentação social e partidária, e com clivagens territoriais profundas. A integração política nacional é fraca e a representação social desigual.
O resultado é uma crise crônica de legitimidade. As instituições são bem mais sólidas do que no Peru, mas as forças sociais são fracas e a violência está enraizada na questão agrária jamais resolvida. Fator essencial para entender a Colômbia é a militarização do conflito social e a ausência do estado. De um lado, grupos paramilitares ocupam territórios e confrontam o Estado. De outro, o narcotráfico ocupa territórios e elimina a presença estatal.
Não se pode afirmar que há uma onda conservadora, de ultradireita, varrendo a América do Sul, instigada por Donald Trump. Há sim o evento global do avanço dos partidos da direita com discurso contra o sistema. Sua eclosão tem raízes distintas como a digitalização, os deslocamentos provocados pela introdução da Inteligência Artificial, aprendizado de máquina e robôs na produção e logística.
A digitalização permite que muitos desses partidos, que viviam em nichos fechados, radicais, adquirissem amplitude, atingindo setores mais amplos da sociedade. Os deslocamentos e as mudanças rápidas na estrutura da produção criaram uma população sem acesso à rede de proteção social tradicional. O mercado se estreita e os jovens se vêem sem perspectiva. As regras de trabalho rígidas e as barreiras à entrada levam os jovens a trabalhar por contra própria. Não se resume apenas à “uberização”. As regras anti-imigração são outro obstáculo à procura por inserção integral nessa sociedade. Tudo isso gera frustração, ressentimento, raiva e, no limite, ódio aos governantes.
O modelo da extrema-direita, que tenta galvanizar os sentimentos tristes e unir os grupos conservadores é Donald Trump. Ele faz uso abusivo da mentira como método político. Chegou ao poder mas está correndo risco de perder as eleições de meio de mandato. Um fato recorrente nestas lideranças é minar a democracia para se manter no poder e conspirar pela autocracia. Trump tem feito um redistritamento racista e eliminando distritos de maioria negra nos estados de tradição republicana.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
No Brasil a extrema-direita venceu em 2018 quando Jair Bolsonaro vendeu-se como “novidade”. Ele foi derrotado em 2022 por absoluta falha de desempenho e tentou um golpe de Estado. Seu filho é um arremedo dele. Tenta reorganizar as forças da direita extremada mas enfrenta dificuldades até na família. O presidente Lula sofre o desgaste de estar há muito tempo no poder. É o favorito, mas se houvesse uma novidade empolgante na extrema-direita estaria em apuros. O problema da democracia brasileira é a falta de renovação das lideranças.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
