Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
Em dia com a psicanálise

O outro que não vemos

Escola Freudiana de BH promoveu oportuno debate sobre a contemporaneidade com o Grupo Galpão, que leva aos palcos a peça '(Um) ensaio sobre a cegueira'

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“A Interlocução com a Psicanálise” acontece uma vez por mês, na sede da Escola Freudiana de Belo Horizonte (EFBH/Iepsi). É o momento em que os membros da escola se reúnem com os participantes em formação, seminaristas e convidados para discutir temas afins com os estudos que, neste ano, giram em torno da “ética da diferença”.

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Desta vez, a sessão foi coordenada por Yaskara Sotero, que compõe a Comissão de Interlocução e Biblioteca ao lado de Evandro Diniz, Regina Pachêco e Yolanda Mourão.

Interlocução importante, por tecer laços entre a psicanálise e outros campos do saber. Foi um excelente encontro com o teatro. O convidado foi o Grupo Galpão.

Eduardo Moreira, ator, diretor artístico e fundador da companhia, e Gilma Oliveira, coordenadora de produção, nos honraram com sua presença. A conversa girou em torno da peça, já encenada 105 vezes, inspirada na célebre obra de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”.

Eduardo foi assertivo ao apontar o contemporâneo como o “império das telas”. Abduzidos pelas telas, vivemos através delas. No individualismo e isolamento, invadidos pelo outro que não vemos. Os algoritmos sabem tudo sobre nós. Somos privados do pensamento crítico.

As big techs, usando a IA, respondem a tudo e já não precisamos pensar. Somos comandados. Sugestionados. Lembro-me da música futurista de Gil: “O cérebro eletrônico comanda, manda e desmanda...”

Além disso, as redes sociais, com a exposição pública, transformaram as pessoas em narcisistas, atores e promotoras de si mesmas. Sabem tudo e ensinam, mesmo sem conhecimento mínimo da história, das grandes narrativas do passado, hoje desconhecidas. Foram substituídas pela diversão, a busca insana pela felicidade e fortuna dos influencers, tiktokers, etc.

Absurda inversão de valores. Converte-se o valor da discrição e pudor em superexposição de imagem, plastificada e vazia, sustentando falsos ideais na grande maioria das postagens.


As fake news invadiram a vida, multiplicando opiniões inconsistentes – quando não, inventadas pela fantasia de cada um, tomadas como verdade. E já não sabemos no que acreditar. As redes sociais, claro, têm seu lado positivo, mas é preciso cuidado.

Vivemos na iminência da catástrofe. O cotidiano nos oferece o terror comandado por lunáticos, narcisistas, feminicidas, imperialistas e totalitaristas, que brincam de mandar, ignorando o sofrimento humano, com sua cegueira.

Nas palavras do produtor Wagner Merije, a obra clama por um novo pacto social diante da cegueira atual, em que cada um se torna prisioneiro de si e imperam o individualismo e a brutalidade. Será a solidariedade, que resiste mesmo no escuro, que se insinua como saída, um mundo em que não cegamos, mas estamos cegos – cegos que, vendo, não veem as grandes mazelas de nosso tempo. O teatro nos conduz a ver e divide com o público histórias tão ricas e diversificadas, um convite a novas possibilidades.

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Atualíssima, a obra mostra que estamos em meio à terrível falta de visão do coletivo. Um mundo capitalista e individualista, cujos interesses não contemplam o coletivo, que, afinal, é a única saída possível para a humanidade. É o que apontam livro e peça, na personagem que, em meio à epidêmica cegueira, é “a mulher que vê”. Ela intermedia e catalisa relações por meio da sensibilidade do feminino, permitindo ao coletivo interação e colaboração. Uma fresta entre os que antes não viam e, agora cegos, voltam a ver que outros humanos habitam o planeta.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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