Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
Em dia com a psicanálise

O que pode a psicanálise?

A psicanálise permite a criação de espaços que fazem ecoar no mundo a lógica do inconsciente, única saída em direção ao saber sobre o real

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Nos perguntamos o que a ética da psicanálise pode fazer para contribuir com o mundo, retirando-nos da ignorância e da ilusão de completude prometida dentro deste quadro desolador do contemporâneo. Talvez, possa, e creio não ser pouca coisa, permitir a transferência, processo inconsciente no qual o paciente projeta e repete desejos, medos e expectativas do seu passado dirigidos ao analista, permitindo assim a escuta do saber inconsciente que sustenta as palavras.

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A psicanálise permite a criação de espaços que fazem ecoar no mundo a lógica do inconsciente. Única saída em direção a um saber sobre o real, a saída da alienação no gozo capitalista, que vem mergulhando nossa cultura na lama e no dejeto desse gozo. Onde impera o gozo não há lugar para desejo.

Sustentar um saber que não exclua o real e que suporte o mal-estar, necessário, em certa medida, para que não nos esqueçamos de que a vida não é plena de felicidade e satisfação. A vida é feita de sacrifício, trabalho árduo e de um olhar que antecipe a tragédia que advém da busca por plenitude.

Da prematuridade inicial de nosso corpo natural e desamparo fundamental seremos, na melhor das hipóteses, marcados pelo olhar, voz e afeto do Outro, nosso cuidador primeiro, que fará ranhuras nesse corpo com a chuva da nuvem de seus significantes. Sons afetivos de lalangue, língua materna com o bebê, que nos determinarão como humanos e nos introduzirão na cultura e suas leis. Não podemos tudo.

A análise nos proporciona uma escritura, materialização como ferramenta para o inconsciente, que não pode faltar, para não cairmos em significações que nos prendem à infinitização do simbólico, tampando o acesso ao real. O sentido do lamento não nos importa, será preciso limpar a espuma religiosa, o sentido imaginarizado que tudo explica. Será preciso suportar o que não tem sentido. Somos desamparados e tentamos construir amparos ou anteparos para suportar isso.

Os progressos da ciência a serviço do capitalismo, tanto para adiar a dissolução do corpo (botox, preenchimentos, plásticas e cosméticos) quanto para evitar as forças da natureza, inclusive, provocadas pela ação inescrupulosa dos capitalistas sedentos e a preferência notável por nos relacionarmos cada vez mais a distância (WhatsApp, celulares, redes sociais), demonstram que não teremos a felicidade prometida. Imersos e ávidos por esse gozo pleno, somos presas de ofertas relançadas.

De fato, somos sós. Tentamos fazer laço, uma vez que estamos fora do sentido fechado do instinto: nascer, procriar e morrer. Nós, na cultura, estamos fora da natureza e tentamos nos agarrar à palavra. Os sons que sustentam as palavras estão prenhes de um real inconsciente para serem escutados. Dos refugos que se esquecem não podemos nos esquecer.

Buscamos a travessia que permita ao sujeito dividido suportar que nenhum objeto pode selar sua falta, pois isso seria sinônimo da morte do desejo. A espera de salvação que vem do Outro faz do homem alvo fácil. E facilidade, convenhamos, nunca nos levará à estreita estrada rumo ao desejo. Esta foi a porta aberta por Freud com a descoberta do inconsciente.

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Tal saída veio da fidelidade com a qual Lacan, leitor de Freud, nos convoca a um trabalho no campo aberto por Freud para restaurar a lâmina cortante de sua verdade e trazer a ética original instituída sob o nome de psicanálise. E para que a psicanálise, por meio de uma crítica assídua, denuncie os desvios e os compromissos que amortecem seu progresso, degradando sua utilização.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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