O futuro e o afeto
Jovens encontram mais instrução e apoio nas redes sociais e no mundo digital do que no diálogo com os pais. A perda de contato socioafetivo é um grande prejuízo
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Vivemos em constante mudança e não podemos prever o que será o mundo daqui a 30 ou 50 anos. As mudanças acontecem em ritmo acelerado e incontrolável, difícil fazer previsão segura sobre a vida social, profissional e também climática.
O que será da humanidade em 2100? Agora não saberemos, porém é fato que as mudanças são constantes e não é fácil educar os filhos para serem cidadãos ativos e preparados para o labirinto do tempo.
Nunca teremos controle absoluto. Não podemos mudar o passado e nem mesmo controlar o presente absolutamente. E do futuro, então, o que dizer? Mas é certo que o real acontece e acontecerá, sempre nos surpreendendo. Fazendo furos em toda programação ou lógica esperada.
Será que um dia o cérebro eletrônico comandará, mandando e desmandando, como cantou Gilberto Gil? Escutamos vaticínios temerosos de que um dia seremos substituídos pela IA. Para algumas tarefas e planejamentos, sim, porém não nos esqueçamos de que a inteligência artificial é uma ferramenta. Muito útil e eficiente, mas não com suficiência completa ou sem a nossa supervisão.
Ainda teremos o comando das tecnologias digitais. Precisamos aprender a usá-las corretamente para nosso máximo aproveitamento e, sem esquecer, com muita ética. Nem sempre elas nos darão as melhores respostas. A racionalidade das máquinas jamais substituirá a sensibilidade, a afetividade e, ressalto, o estilo singular de cada um.
Sabemos que há 30 ou 50 anos tínhamos uma sociedade mais conservadora, em que havia hierarquia nas famílias. Hoje, somos mais liberais, porém o fantasma colonialista e machista ainda paira na cultura, e com força.
A contradição é visível. Muitas famílias são liberais em excesso. Adolescentes discutem com os pais de igual para igual, desconsiderando o valor da experiência. Os jovens encontram mais instrução e apoio nas redes sociais e no mundo digital do que no diálogo com os pais. E esses se sentem despreparados frente a atualizações transmitidas na internet em tempo integral, muitas vezes, poupando-se da tarefa educativa, que impõe limites e sacrifícios da vontade sobre diversos assuntos, como namoro, sexo, estudo, trabalho. Julgam que os jovens sejam bem-informados. Ledo engano.
Pais de hoje perguntam aos filhos sobre as modernidades virtuais. E muito mais: entregam seu poder de tutores a celulares e computadores, relegando a importância do afeto na transmissão de regras e limites necessários na vida coletiva. Inseguros em relação à educação, temem contrariar seus amados e supervalorizados filhos, ignorando que sua função é exatamente essa.
O que mais precisam é determinar limite e impor respeito, mostrando ser capazes de acolhê-los em qualquer circunstância, para que, em situações de risco, saibam que têm a quem recorrer para assegurá-los.
Nas escolas, os sintomas da educação sem noção de valores se apresentam no comportamento dos adolescentes, muitas vezes sem o respeito devido aos mestres, tratados como se fossem empregados. São os que aprendem que o mais valor é a fortuna de seus pais e/ou dos poderosos influencers do TikTok e seus milhares de seguidores.
Será que o futuro nos reserva esta pergunta: para que precisamos de escolas? Certamente, esse é um enorme risco para nossa cultura. A perda de contato socioafetivo é um grande prejuízo. O afeto que nos afeta e educa vem das relações.
Recém-nascidos, se deixados no berçário por muito tempo, sem contato humano, sem o som da voz e o toque, apresentam hospitalismo, também chamado marasmo. Não demonstram intenção de viver e muitos, de fato, perdem a vida.
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Somos dependentes do afeto, ele é uma carga de energia viva. O som da voz dirigida ao bebê é estruturante. Qualquer afeto afeta e humaniza, contatos e sons são sentidos no corpo e fazem marcas definitivas para a saúde mental.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
