
A influência do outro
Por que mudamos de opinião para não desapontar as pessoas que nos cercam? Até que ponto devemos ceder ao que se espera de nós?
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Até que ponto somos influenciados pelos outros no ambiente em que vivemos? Por que o que o outro pensa sobre nós nos preocupa tanto? Por que mudamos de opinião para não desapontar as pessoas que nos cercam? Até que ponto devemos ceder ao que se espera de nós? Essas perguntas estão sempre circulando entre nossos maiores temores.
Esse outro a que me refiro é fundamental e estruturante. Sobrevivemos por causa dele. Ele é quem nos inscreve na cultura, isto é, na linguagem que nos insere como sujeitos na vida civilizada. Seu cuidado, olhar, voz e afeto marcam o corpo natural, até então sem marcas. Feitas essas marcas afetivas, estamos salvos, podemos dizer que nos tornamos sujeitos de linguagem.
A linguagem que nos permite entrar no sistema de trocas e laços. Aquele que não recebeu palavras e olhar e não foi inscrito como sujeito na cultura permanece perdido, sem o rumo da circularidade pulsional em torno dos objetos do mundo. As pulsões não direcionadas ficam emaranhadas no corpo no triste mundo das psicoses.
Essa influência primitiva é determinante e nos condiciona a repetições futuras. Se o grande outro, seja materno ou outro cuidador, nos acolhe e nos protege, sobrevivemos. Sem ele nossa existência está ameaçada, tanto o corpo físico quanto a vida psíquica. Por isso seu grande peso em nossa vida, por isso sua palavra tem grande peso.
Somos influenciáveis porque reconhecemos nossa imagem através do seu olhar, que, como um espelho, reflete nossa imagem. Imagem que nos dá a noção de que temos um corpo. De que aquele corpo no espelho sou eu! Que júbilo vive a criança nessa descoberta maravilhosa.
Desse outro vêm também os ideais da cultura da qual progressivamente nos tornamos parte. Do outro inaugural seguem outros, os semelhantes. Quando acolhidos, o sentimento de pertencimento entre iguais e em relação a um líder é confortante e fazemos tudo para assim permanecer. Por isso a influência do outro pode ser positiva, opressora, dominadora e negativa.
Isso pode ser visto nos grupos identitários que hoje representam lutas próprias, que se fecham em seu objeto e, de certo modo, se separam em guetos, unidos em torno de seus interesses, o que de certo modo produz segregação. A grande massa de trabalhadores, que tinha representação política, se fragmenta em mil faces e perde força. Ponto negativo.
Um grupo ou um forte líder podem conduzir pessoas a situações bastante radicais. Muitos exemplos nos mostram que algumas catástrofes mundiais se dão a partir da influência de um líder forte com que nos identificamos verticalmente.
Por exemplo, o nazismo. O povo alemão adotou os ideais de Hitler e colaborou para o extermínio de milhões. O reverendo Jim Jones levou sua congregação para a Guiana e a conduziu a matar seus filhos envenenados e, depois, morrer. Eram loucos?
Não. Foram manipulados por um líder carismático e sua fé numa crença fanática. Quantas mulheres fazem concessões e se despersonalizam por acreditar no amor? Tudo por amor... Amor é muito bom, mas pode se tornar uma droga alienante e pesada.
Aqui mesmo, a exemplo do bolsonarismo, que levou tantas pessoas a invadirem o Palácio do Planalto, vandalizando, depredando obras de arte e valiosas antiguidades. Em que isso objetivamente ajuda na política?
Que vantagem trouxe para o país? Em muitas situações, pessoas normais enlouquecem, ultrapassando seus limites. E isso mostra o quanto somos vulneráveis e passíveis de nos alienar no desejo do outro. Chega-se ao ponto de até mesmo perder a vida. Por isso muitos matam. Por isso muitas morrem
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.