
Tudo é fantasia
A psicanálise convida o sujeito a ousar ir além do saber, da ciência, do imaginário e da fantasia. Nesse caminho, cortes e costuras recompõem o tecido psíquico
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O infamiliar é um neologismo que Clarice Lispector utilizou em vários momentos de sua obra. Não se encontra em dicionários de língua portuguesa e nem se sabe se ela foi a primeira a usá-lo, por pelo menos umas 16 vezes em seus romances, contos e crônicas, o que torna a palavra um significante singular e objeto de maior atenção.
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A palavra infamiliar tem sido utilizada na recente tradução da obra de Freud pela Editora Autêntica. Na tradução inglesa da Standard, a primeira que chegou ao Brasil, a palavra usada era estranho, para dizer do desconhecido e não confortável em nós, da ordem do inconsciente. Isso aponta para a importância de discernir um real intraduzível, verdadeiro furo de sentido que nos habita.
No processo de uma análise, a regra fundamental e única exigência é que o paciente fale. Fale tudo que lhe vem à cabeça sem censura. Se a princípio parece difícil se soltar tanto, com o tempo é possível superar a inibição e perceber que, a cada vez que se fala sem pensar, surge alívio.
Como disse uma das primeiras pacientes de Freud – que até então não tinham voz sendo tratadas com choques, banheiras de gelo e outras torturas infrutíferas –, quando escutada era como se limpassem a chaminé, desobstruindo um aprisionamento.
Quando somos escutados, as consequências são aproximações de revelações inconscientes e do sentido dos sintomas, mesmo que não saibamos muito exatamente do que estamos falando.
A fala não respeita a cronologia do tempo, ela é circular, porque o inconsciente é atemporal. Ele libera conteúdos de forma velada, deformada, deslocada e condensada. Cabe ao escutador escrutinar a lógica inconsciente, nem sempre racional e quase nunca linear. Ela será transmitida na fala livre, nos sonhos, nos atos falhos e lapsos de linguagem.
Assim se revelará algo do desejo do qual pouco sabemos quando começamos a falar porque falamos de fantasias que estão veladas e inconscientes, mas formatam nosso mundo e a interpretação dele. A fantasia não se torna totalmente consciente e, mesmo assim, é atravessada nesse percurso que fazemos, como nos esclarece Gilda Vaz em seu último livro “Nó – Uma leitura do seminário Momento de Concluir, de Jacques Lacan” (Editora Atos e Divãs), não se trata de conhecimento, mas de um outro modo de saber.
Daí a interpretação analítica a partir do dizer se abre para outros sentidos, a partir do impossível de ser dito sobre o real. Nunca dizemos tudo porque não podemos apreender todo o real. A partir do dizer e do corte, abre-se uma nova dimensão com a potência de suspender fixações, que nos obrigavam a repetições de mal-estar.
Serão necessários, no caminho de uma psicanálise, cortes e costuras, recompondo o tecido psíquico e renovando as formas de entender o que nos levou ao sofrimento, motivo da busca de alívio através do tratamento analítico.
Esse corte é o que ata e desata aquilo que aprisiona e aprisionando o sujeito em suas amarrações imaginárias, que poderão, a partir desse trabalho, ser rearranjadas em novos enlaçamentos que permitirão modificações de suas perspectivas e interpretações do vivido. Vivido que é sempre atado a uma fantasia e de um real visto através dela, não nos permitindo outras alternativas fora do ponto de visão tradicional.
A psicanálise convida o sujeito a ousar ir além do saber, da ciência, do imaginário e da fantasia, segundo Lacan, tudo vem da fantasia e nos agarramos a ela para nos explicar. Ela nos convida a renunciar às bengalas imaginárias que usamos para dar sentido ao que não temos palavras exatas para dizer. Como com a fantasia de Carnaval. Vestimos e desfilamos, mas continuar nela seria assustador. E por isso a psicanálise é libertadora fazendo cair fixações. Exatamente isso: liberta-a-dor.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.