
O excesso de palavras nem sempre é a melhor solução
Silêncio não quer dizer concordância nem desistência. Muitas vezes, quer dizer respeito, cuidado e amor
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O diálogo ajuda a resolver conflitos. Sabemos que problemas podem alcançar acordos interessantes seja na política, na família ou na convivência social. Mas nem sempre há garantia de que as coisas se resolverão.
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Nem sempre o excesso de palavras é a melhor solução. A ansiedade em se explicar pode levar ao fracasso. Tomado pela angústia ou com intenção de se desculpar, tentar alinhar todas as diferenças é geralmente inútil. Quanto mais urgência em se fazer entender, mais as coisas se complicam. Poucas palavras dizem o essencial. O silêncio faz o outro pensar.
E mais: a tentativa de alinhar completamente as situações que vivemos em meio a tantas diferenças individuais e desejos tão plurais, na maioria das vezes, é infrutífera. Muitos sonham em esgotar as dúvidas e angústias dialogando abertamente, colocando a sua verdade na mesa para curar relacionamentos. É uma impossibilidade.
Transmitir todas as razões de preocupações, inseguranças e dúvidas para o outro é negar pensá-las e assumi-las, pois já são conhecidas e difíceis de aceitar. Somos mais do autoengano do que do “fui enganado”, por mais difícil que seja admitir isso.
Quando desconfiamos de um próximo, é por percebermos o sinal sutil que não “empalavramos” ainda. O temor de pronunciar abertamente o que não sabemos que sabemos pode causar rupturas e desacordos maiores. Talvez seja necessário lavar a roupa suja em algum momento, mas, como diz o ditado, não se pode dispensar o bebê com a água do banho.
Igualmente, não se faz omelete sem quebrar ovos. Tem momentos em que as palavras dizem coisas duras e necessárias. Ditas com delicadeza e cuidado, elas facilitam a escuta. Nada como as palavras em hora certa e na medida. Nada como se calar quando basta. Acertar essa balança é arte de viver.
Insistir na conversa plena é desejar a relação ideal, perfeita, fazer um de dois. Lacan defendia a impossibilidade da relação sexual. Ele afirmava que não há entendimento perfeito entre duas subjetividades, pois dois desejos nunca são idênticos e não há concordância em tudo.
Quando se diz “eu só falo a verdade, eu não minto”, já se está faltando com a verdade. Ninguém diz tudo, até porque nenhum de nós tem acesso à sua própria verdade completamente. Interessante palavra: completa-mente. Somos parciais e desconhecemos toda a verdade, pois ela é plural. Além da existência do inconsciente, cada ângulo permite um ponto de vista.
Entretanto, nem sempre as pessoas sabem quando é melhor insistir em dizer tudo, outro impossível, ou se calar. Silêncio não quer dizer concordância nem desistência. Muitas vezes, quer dizer respeito, cuidado e amor. Por mais doloroso que seja se calar em certos momentos de desentendimento, acusações mútuas são o pior que podemos fazer, criando mágoas e mais incompreensão.
O desespero por esclarecer uma intenção mal interpretada para alguém, por medo de perdê-lo, só faz aprofundar distâncias. Quanto mais se explica, maior o embaraço. Nem tudo pode ser declarado ou explicado.
Por que é tão difícil se conter, se afastar e deixar o tempo e o silêncio trabalharem? Por que não entregamos e esperamos que as coisas se refaçam pelo desejo das partes em encarar as duras verdades, mesmo que equivocadas, acreditando que elas próprias vão se deitar com aquelas palavras no travesseiro e acordar com outras? Quantas vezes solucionamos problemas nos sonhos ou despertando do sono?
Explicar-se demais, exceder-se nas insistências para ser compreendido e amado faz parte de nosso sentimento de desamparo fundamental, do desejo de fugir da solidão, de ser sem garantia nenhuma nesse real duro de roer. Porém, se há algo de bom em deixar de produzir tantas justificativas, é o desejo maior ainda de fazer do outro alguém capaz de se recolocar quando pensa e se percebe em seu erro ou acerto.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.