
A vida psíquica é composta por instâncias: imaginário, real e simbólico
Sartre disse que nosso inferno é o outro. Porém, ousamos ir além, afirmando que nosso inferno está dentro de nós
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Dificuldades na vida, nos relacionamentos e no trabalho são uma constante. Mas o que mais traz sofrimento são as relações. Disse Sartre que nosso inferno é o outro. Porém, ousamos ir além, afirmando que nosso inferno está dentro de nós. A vida psíquica é composta por instâncias: imaginário, real e simbólico. São enodados ou superpostos, amarrados ou não.
O real é onde estamos mergulhados e do qual não temos controle, ele acontece. O simbólico faz a mediação entre os outros dois e é capaz de conter, legislar, encontrar soluções de compromisso, que são os sintomas.
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O imaginário é o descarrilhado, antecipa os medos para se defender. A fantasia é como uma lente que tonaliza toda a realidade. Nossa realidade é contaminada pela subjetividade. E projetamos no mundo, no outro, parte do que somos. O simbólico faz a mediação entre os dois, é capaz de conter, legislar, encontrar soluções de compromisso, que são sintomas.
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Em todas as análises, curiosamente, as palavras vão andando uma depois da outra, nos levando a associações que nos parecem espontâneas, mas, afinal, vão exatamente para onde deveriam ir. Alógica do inconsciente é precisa.
A associação livre nos conduz espontaneamente ao romance familiar, às marcas afetivas no corpo natural dos sons das palavras, de toques, afeto. Os relatos nos guiam para onde é preciso ir. Sempre seguimos suas pistas. E até mesmo as pistas falseadas, em algum momento, se revelam de algum modo muito proveitosas. Até o mentir do sujeito traz sua marca singular. E ele se revela assim. Claro que não somos investigadores que desvendamos mentiras. Seguimos palavras, quaisquer que sejam, elas dizem.
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O inconsciente, sempre ativo, aparece nas palavras, sonhos, sintomas e afetos, indicando o emaranhado que chega com cada um e oferece, se houver continuidade e persistência, possibilidades de novas amarrações, novos laços, um enodamento mais organizado entre as três instâncias em um quarto elo.
Isso só nos é possível através das palavras oferecidas ao analista – se ele escuta os sons mais íntimos do ser e os ecos da voz que clama por vir à luz para libertar o sujeito da sua dor. E, assim, tecendo os fios, refazemos tramas para que as amarrações possam ser refeitas de modo eficiente.
As pessoas em sofrimento e conflito nos apresentam repetições nas relações atuais, são cristalizações de suas interpretações do que viveram, marcas antigas que forjaram o pensar e o sentir. O trabalho analítico esclarece, clareia, revela o que no inconsciente estava guardado, fechado, impedido de sair pelo conteúdo antissocial. A agressividade, o egocentrismo, a impulsividade são afastados, pelo menos em parte, da consciência pela educação civilizada, em favor da coletividade e da boa convivência.
Também o desejo é, em grande parte, inconsciente. Sabemos pouco sobre ele. Educados para atender demandas familiares e sociais por amor, o desejo é reprimido por representar o perigo de abandono.
Quanto ao mal-estar que nos leva a uma análise: quando um sentimento de humilhação se repete em certas situações, ou o abandono surge nos contatos amorosos e sociais, ou outros sentimentos nos relembram sentimentos antigos, tornar esta conexão repetitiva consciente eleva o sujeito a outra posição. De não se render ao que o assombra de seu passado. Para que estabilizações e melhores lugares sejam alcançados, é preciso muito trabalho. Devagar tecemos novos enlaces e novas configurações.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.