Paulo Delgado
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COLUNA

Eleições para bilhões no mundo

Em muitos casos, tanto em regimes presidencialistas quanto parlamentaristas, o resultado da votação pode é na verdade iniciar uma negociação, em vez de encerrá-la

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Ontem, o Brasil se juntou a bilhões de pessoas no mundo cujos países usam o sistema eleitoral, apostando mais ou menos na democracia.

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Estima-se que, ao longo de todo o calendário de 2026, mais de 1,5 bilhão de eleitores irão às urnas em cerca de 60 países. O número reúne disputas de diferentes níveis e regimes políticos. Impressiona pela escala, mas não autoriza comemoração desvencilhada de ponderações. Muitas vezes na urna entra paixão, sai do outro lado frustração.


Para saber quanto vale uma eleição, convém perguntar o que acontece com quem perde e quanto pode fazer quem vence. Portugal, com quem dividimos a língua e muito mais, abriu o ano escolhendo seu presidente. Aqui na região, Colômbia e Peru também o fizeram.


No setembro que acabou de findar, a Suécia foi às urnas. Após o Brasil, ainda virão as eleições legislativas estadunidenses de meio de mandato presidencial, em 3 de novembro, e as neozelandesas, quatro dias depois. A coincidência de práticas eleitorais tem também em si diferenças importantes.


Em alguns lugares, como por aqui, escolhemos diretamente o chefe do Executivo. Já em outros, elege-se o Parlamento do qual sairá o governo. A discussão entre um modelo e outro nunca ficou bem assentada no Brasil, ainda que o povo tenha sido chamado a escolher outro modelo.


Em muitos casos, tanto em regimes presidencialistas quanto parlamentaristas, o resultado da votação pode é na verdade iniciar uma negociação, em vez de encerrá-la.


No Vietnã, que também realizou eleições neste ano, só o Partido Comunista é legalizado, o que fere a legitimidade do ato de votar.


Em Uganda, a ONU denunciou repressão contra opositores antes e depois do pleito. Contar votos não basta quando o poder instalado cerceia previamente quem poderia disputar honestamente, ou atua com parcialidade sobre o que pode ser publicado e enviesa as críticas a passíveis de punição.


A competição precisa existir antes da abertura das urnas e sobreviver, de forma saudável e madura, ao seu fechamento. Mesmo entre democracias, comparar exige cuidado. Sistemas proporcionais procuram acomodar mais correntes políticas no Parlamento, gerando governos de coalizão que precisam negociar prioridades, às vezes quase que caso a caso.


Essa inclusão tem benefícios, mas também seus custos. Num recorde mundial, a Bélgica levou 541 dias para formar um governo após as eleições de 2010. O episódio, que ocorreu após uma crise de cerca de cinco anos na política do país, ajuda a entender a impaciência do eleitor, mas nunca parece inútil ressaltar que isso não transforma a concentração de poder em solução.


Nessa seara, a Hungria ofereceu neste ano uma razão para moderar o fatalismo. A vitória de Péter Magyar encerrou 16 anos de governo de Viktor Orbán, cuja concentração de poder provoca sucessivos conflitos com a União Europeia. O resultado demonstra que o desgaste democrático pode encontrar resistência eleitoral, ainda que apenas depois de anos e sob muitas pressões de todos os lados.


Reconstruir instituições, porém, demanda mais que substituir seus ocupantes. A maioria que promete restaurar limites também precisa aceitar ser limitada. E é aí que a virtude vacila na ausência de instituições saudáveis e funcionais.


Nos Estados Unidos, as eleições de novembro renovarão toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Os representantes, equivalentes aos nossos deputados federais, têm mandatos de apenas dois anos, e as eleições legislativas de meio de mandato presidencial são a oportunidade de a população decidir se dará mais força ou tirará a força daquele que ocupa a Casa Branca. A nova composição do Congresso dos EUA influenciará a capacidade de manobrar do presidente.


O eleitor pode aprovar uma liderança e, depois, desejar contê-la, caso esteja se excedendo. A democracia permite essa revisão sem exigir que o país comece do zero. Na América do Sul, as vitórias conservadoras na Colômbia e no Peru alteraram o equilíbrio político regional que pende ora para a direita, ora para esquerda.


Há, sempre, motivos para cobrar a política sem desistir dela. O cientista político australiano, Robert Thomson, por exemplo, reúne evidências de que há sim correspondência entre programas eleitorais e decisões governamentais, variável conforme as instituições e os acordos de poder. Promessas podem sim ser verificadas em sociedades evoluídas.

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Votar hoje exige alguma paciência com pessoas que talvez não a mereçam. Nenhum resultado eliminará nossos conflitos, nem deveríamos esperar isso. Sociedades livres continuam discordando sobre como viver. Mas só a democracia deixa espaço para confirmar esperanças ou corrigir decepções.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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