Paulo Delgado
Paulo Delgado

O Atlântico Sul acorda

A vocação pacífica do Atlântico Sul precisa, portanto, ser sustentada por instituições, coordenação política e capacidade material

Publicidade

Mais lidas


São 24 os países, crescidos na rudeza e na indiferença dos grandes, distribuídos entre a África e a América do Sul, que buscam afirmar o Atlântico Sul como uma zona de paz. Finalmente podemos ter a Zopacas, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul. Iniciativa que vem lá de meados dos anos 1980 e que expressa uma ambição relevante: preservar a paz e fomentar a prosperidade na região do globo em que nos encontramos, com foco em seus próprios habitantes e Estados. Região, até hoje, reduzida à lógica da rivalidade entre potências expansionistas e intervencionistas.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Neste mês, o Brasil recebeu representantes dos países do grupo para dar início a mais um período de presidência brasileira da Zopacas. Muitos aspectos geopolíticos e geoeconômicos evidenciam a urgência da criação da iniciativa e a necessidade de dinamizar várias de suas frentes.


Do ponto de vista objetivo da geografia, na América do Sul são apenas três os países banhados pelo Atlântico Sul: Brasil, Uruguai e Argentina. Sendo assim, todos os demais 21 membros da Zopacas são africanos. Todos os países africanos dentro desse fórum estão em sua costa ocidental, mas há maior liberalidade em sua inclusão no grupo, já que alguns deles estão acima da Linha do Equador, sendo Cabo Verde e Senegal aqueles mais ao norte.


De todo modo, é necessário clareza para afirmar que a paz não significa confundir serenidade com passividade. O mundo está em trânsito. O Brasil perde tempo com conexões desnecessárias e não faz ideia de sua grandeza. A paz, sobretudo em espaços marítimos de importância geopolítica, exige vigilância, ocupação, coordenação e capacidade de ação. O Atlântico Sul é um vazio político. É uma área atravessada por interesses econômicos, rotas comerciais e de comunicação, recursos naturais e disputas potenciais que não desaparecem porque seus governos sangram sem sofrer pelo que vão deixar para seus povos.


Atualmente é pouco lembrado que no século 19 o Brasil ficou sem relações diplomáticas por alguns anos com o país mais poderoso do mundo àquela época. E tudo se deu porque um representante político do Reino Unido de então usou um incidente marítimo numa remota parte da costa do Brasil para provocar e testar os nervos das autoridades brasileiras.


O que ficou conhecido como a Questão Christie foi uma demonstração de que potências intervencionistas não necessitam de um pretexto plausível para causar transtornos. Entretanto, pior é transmitir a sensação de vazio, porque o vácuo torna-se atraente para indivíduos e grupos mal-intencionados.


Por isso, a defesa, pensada como algo que vai além das Forças Armadas, tem papel indispensável nesse cenário. Não como negação da cooperação mesmo com países externos à região, mas como complemento e necessário da própria cooperação.


Uma diplomacia e defesa atuantes, com estratégias de dissuasão em várias frentes, ajuda a impedir que a região se torne vulnerável a pressões externas, aventuras oportunistas ou dinâmicas de instabilidade sobre as quais temos pouca influência. A atuação constante em busca do desenvolvimento é fundamental, uma vez que a ausência de preparo fragiliza a paz.


A vocação pacífica do Atlântico Sul precisa, portanto, ser sustentada por instituições, coordenação política e capacidade material.A Zopacas, assim, pode ser um instrumento mais importante do que nunca, justamente porque propõe que a segurança regional seja construída a partir da concertação entre os países da região, não deixando vácuo que gere o desejo de vê-la imposta de fora para dentro. Paz duradoura não se produz apenas com decisões bem-intencionadas e planejamento, mas com atuação e investimentos cotidianos, calcados em compromissos políticos de Estado e responsabilidade estratégica. Decisões que não fiquem à mercê da variação de governos, sobretudo em uma zona com 24 países, onde o arrebatamento pessoal de seus governantes é tido com coisa séria.


Fazer do Atlântico Sul uma zona de paz com prosperidade compartilhada exige uma institucionalização mais elevada de seu papel. Uma visão capaz de conciliar cooperação e soberania, desenvolvimento e segurança, prudência e presença. E nesse contexto, a natural liderança do Brasil deve ser sempre negociada com respeito e garantia do benefício mútuo para se fazer necessária.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


A partir deste abril, o Brasil será o presidente da Zopacas pelo período de três anos. É uma oportunidade para se aprofundar essa visão de que somos uma zona de paz que busca a prosperidade por meio da cooperação e do diálogo. É preciso parar de conversar em pé e parecer apressado para exercer poder. A paz, para ser real e duradoura, precisa ser desenvolvida por valores, serenidade e razão.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

africa atlantico-sul brasil

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay