Lar, doce lar
"Ela não se sentia em casa no local para onde se dizia obrigada a voltar todos os dias"
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Tenho feito viagens longas com pequenos intervalos entre elas. Por mais que eu ame percorrer o mundo e toda a diversidade que ele guarda, conhecer pessoas e culturas que muitas vezes exigem tempo para serem compreendidas, é sempre muito bom voltar para casa.
“Lar doce lar” pregava o adesivo que mantive colado na porta do guarda-roupa cinza azulado que dividi com minha irmã por toda nossa infância e adolescência. Também dividíamos muitas das peças ali guardadas, além dos segredos que, só com quem nos sentimos em casa, conseguimos fazê-lo.
Três anos antes de me casar, morei com uma tia e até hoje, 40 anos depois, tenho viva a sensação que experimentei ao depositar minha única mala no chão da sala quando cheguei. Parecia que aquelas paredes me eram conhecidas e já traziam impressas minhas indagações e meus sonhos.
Estou há três dias subindo e descendo de aeronaves de todo tipo, com rápidos intervalos para dormir, me alimentar e tomar um banho, até que seja possível atracar em terra firme para dar início a mais uma temporada no continente africano. Cada dia um colchão ou uma poltrona que de reclinável tem pouco, sem muita opção de esticar as pernas e de pousar os braços.
Antes de partir encontrei uma amiga que me pediu para estendermos um pouco mais nossa prosa, passar para temas fúteis e sem propósito simplesmente porque ela queria se distanciar o máximo possível da hora de ir embora. Ela não ia para casa porque dizia não ter uma para chamar de sua. A rua, por mais impessoal e tumultuada, lhe proporcionava paz.
Não que lhe faltasse um ponto fixo que abrigasse seus pertences, seus utensílios de cozinha, sua toalha e seus sonhos. Ela não se sentia em casa no local para onde se dizia obrigada a voltar todos os dias depois do trabalho ou à noite depois de um rolê despretensioso.
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“Lar é onde mora o coração” diz outra frase que insiste em nos acercar por onde passamos e vivemos. De fato, lar e coração se confundem quando o que faz a liga são pessoas e os encontros que elas são capazes de promover.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
