
Adversidades desejadas
Mas não foi com muito espanto que a reencontrei dias depois na mesma zona de conflito. Só que ela não estava mais sozinha.
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Há meses, ao tentar usar o vaso sanitário do espaço que chamo de ateliê de costura na minha casa, me deparei com uma pequena perereca lá dentro. Pensei “ok, você gosta de lugar onde tem água” e, como a parte mais forte dessa relação, optei por usar outro banheiro. Dias depois, a cena se repetiu, mas dessa vez decidi enfrentá-la e enviá-la para o fundo das águas porque sabia que ela sobreviveria. Afinal aquele era meu espaço e não o dela.
Mas não foi com muito espanto que a reencontrei dias depois na mesma zona de conflito. Só que ela não estava mais sozinha. Decidiu me apresentar mais alguém da família, o parceiro talvez ou sua herdeira. Me dei por vencida. Afinal, passou a ser duas contra uma. Já que a luta ficou desigual, fechei a porta e, enquanto não decido o que fazer efetivamente, vou deixar como está.
Não que eu seja adepta de teorias da conspiração ou de perseguição, mas saindo de casa recentemente ouço um “taf” no para-brisa do meu carro. Outro exemplar da mesma espécie caiu ou se soltou de algum galho ou superfície sem muita aderência e foi parar exatamente onde meus olhos alcançavam. Ah meu Deus essa vai mudar forçadamente de habitat!, pensei. Mas rapidamente tive a feliz ideia de ligar o limpador de para-brisa conjuntamente com um jato de água de forma a impedi-la de se mudar para a selva de pedra do centro da cidade, para onde eu me dirigia.
O que há de melhor em morar no mato é exatamente ter esse tipo de contrariedade. Há quem considere um horror o som estridente e ininterrupto das cigarras, a conversa fiada e afiada dos pássaros quando o sol se prepara para nascer e o sono é mais gostoso, as indesejadas invasões de quatis em sua busca alucinada por comida (o problema maior deles é a sujeira que deixam para trás), o som ritmados da chuva caindo nas copas das árvores, os assobios dos miquinhos à espera de atenção traduzida por um pedaço de banana, formigas, formiguinhas e formigões e tantas outras coisas e seres mais.
Ruim mesmo é enfrentar o trânsito poucos quilômetros depois de sair de casa com os seres ditos inteligentes e superiores se digladiando verbalmente enquanto disputam centímetros a serem ocupados por seus carros numa busca desenfreada de alguma coisa que não sabem bem o que é.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.