Nada como um dedo de prosa
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Tenho violetas roxas e brancas na janela da cozinha. Estão comigo há tantos anos que já perdi as contas. Na minha memória, ocupam aquele espaço desde sempre. O que faço é conversar com elas e, vez ou outra, trocar-lhes a terra que vai definhando como se consumidas pelo tempo de ficar ali, aparentemente inertes, mas remexidas por micro-animais a mim imperceptíveis.
São três pequenos vasos daquele tipo ordinário de plástico preto colocados sobre pires separados de suas xícaras que, ainda assim, mantém a função e a beleza: impedir que a água escorra fora de seus limites e dar ao micro-jardim ares de sofisticação, mesmo que não os tenha.
As flores vem e vão sempre. Difícil as três ficarem só com as folhas de aparência aveludada. Enquanto espero a água do café esquentar, as aprecio e uso as unhas para tirar os talos das secas. Assim sobrevivem. Ter violetas na janela da cozinha é um hábito que mantenho desde que me casei, há 36 anos. Não me lembro como começou, mas perdura, independentemente de onde eu more.
Da primeira vez que viajamos e fechamos tudo por semanas, pedi a uma vizinha e amiga que, sempre que possível, regasse as poucas plantas que tínhamos no apartamento. Assim ela fez. Dia sim, dia não, subia os três andares que nos separavam e, além de molhar as plantas, abria as janelas dando ao ar chance de circular. “Faz bem pra tudo”, argumentava.
Com o passar dos dias percebeu que as violetas perderam o brilho, pareciam murchas mesmo recebendo água suficiente para manterem-se vivas e saudáveis. Poucos dias antes de nosso retorno, indignada com o quadro de apatia das flores, decidiu levá-las para seu apartamento, com a intenção de aplicar-lhes um tratamento de choque. Deixou-as na janela de sua cozinha e foi dar sequência ao resto de seu agitado dia.
Pouco depois, ao retornar para a cozinha, se deparou com as flores radiantes como se nunca tivessem conhecido abatimento. Ao olhar para elas, ao mesmo tempo assustada e admirada, acreditou ter matador a charada. “Elas não gostam de ficar sozinhas! Que graça tem tanta formosura se não há alguém para apreciá-las e com elas trocar um dedo de prosa nem que seja falar do sol que não dá trégua ou da falta de umidade que seca?”
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.