
Violência gratuita e abuso de poder
Essa foi a senha para que duas seguranças agarrassem meus braços e me jogassem para fora com força suficiente para deixá-los roxos por dias
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Fui ao Estádio Independência no jogo que classificou o América como finalista do Campeonato Mineiro. Havia anos que eu não assistia in loco uma partida de futebol. Na adolescência, não perdia um jogo, tanto pelo prazer de acompanhar as jogadas quanto pelo espetáculo por parte das torcidas.
Ao longo dos anos, fui abandonando os campos, as transmissões pela TV, assim como a habilidade de construir mentalmente cada jogada pela voz do locutor de rádio. Até que um casal de amigo convidou a mim e ao meu marido para irmos ao Independência. Por que não? Confortavelmente sentada na arquibancada, me pus a fazer o que mais me apraz quando vejo muita gente junta: observar. Me chamou a atenção a quantidade de criança pequena. Programa de família. Logo comecei a imaginar eu e meus netinhos ali, netinhos que sequer nasceram.
Torci pelo América, pois estava naquele lado da torcida e não simpatizo em nada com o Cruzeiro. Uma partida que começou animada caiu num marasmo danado. Sem saber qual time fez melhor campanha durante o campeonato, achei o empate justo, já que os dois lados não me pareciam merecedores da vitória naquele dia. Mas era preciso um vencedor.
Depois de ver o América perder um pênalti no fim do segundo tempo, decidi observar o que faziam os torcedores que estavam nos corredores das lanchonetes. Andando calmamente entre famílias dispersas, vi um torcedor sair do banheiro e ser agredido gratuitamente por outro, completamente embriagado. Enquanto gritava “esse cara é cruzeirense”, dava-lhe socos desgovernados. Olhei para todos os lados buscando encontrar reações dos de fora, principalmente de algum agente da segurança. Alguns poucos homens tentaram segurar o agressor, sem muito sucesso, enquanto o agredido tentava entender o que estava acontecendo. Agente de segurança, nenhum. Mais tentativas de golpes, alguns acertos, outros socos no ar. Habituada a me locomover em campo minado, me posicionei em frente ao rapaz que me pareceu a parte mais fraca, ficando entre os dois homens. Usando meu corpo como escudo, fui conduzindo-o para longe, enquanto os amigos do outro tentavam lhe controlar a ira. Depois de dar cobertura ao rapaz por vários e muitos metros, eis que surge um grupo de seguranças, como quem fora surpreendido pelo disciplinário matando aula. Saíram correndo do corredor dos camarotes que, por acaso, não estavam sendo usado naquela tarde.
“Meu Deus! Onde vocês estavam?” Pergunta idiota, reconheço. Estavam acompanhando o que rolava nos gramados, sem interesse nenhum no entorno. Caso contrário, teriam reagido mais rapidamente, ou melhor, não teria sido necessária a interferência dos amigos do agressor e muito menos a minha.
Que solução deram, então? Levaram a mim, ao rapaz que tomou soco de todo lado sem ter revidado nenhum e a esposa dele para um corredor que saiu no andar superior e nos obrigaram a deixar a “casa”. Tentei explicar o que tinha ocorrido, mas o orgulho deles estava ferido demais para ouvir uma mulher como eu. Trocamos de papel, decerto. Eu deveria estar assistindo o jogo e eles apartando briga. Antes de sair, falei. “Calma, preciso avisar meu marido”, essa foi a senha para que duas seguranças agarrassem meus braços e me jogassem para fora com força suficiente para deixá-los roxos por dias. Os demais torcedores envolvidos sequer foram incomodados. Fomos acolhidos por quatro PMs que estavam na porta, de quem ouvi a sugestão de fazer um boletim de ocorrência (BO).
Finda a partida, mesmo do lado de fora, a duras penas consegui que um segurança me explicasse porque os três que fugiram da luta foram expulsos e os brigões não foram incomodados. Pasmem! “Vocês não estão usando a camisa do time como os outros. Então, devem ser cruzeirenses”. Ouvir isso foi mais assombroso que assistir a uma partida de futebol ruim, numa linda tarde de sábado. Por ironia, o agredido estava usando camisa branca e eu, verde-claro. Eu fui pelo espetáculo do futebol, o rapaz que apanhou era um turista paulistano desavisado passeando por BH e sua esposa estreante no universo futebolístico. Seu jovem marido escolheu levá-la ao Independência porque ouviu dizer que ali o ambiente era seguro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.