
Ladrão que rouba ladrão…
"Reconheceu a bike dela em um anúncio no Facebook e marcou de encontrar o rapaz"
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Londres é uma cidade onde se vê muita gente usando bicicleta como transporte diário, apesar de ter um trânsito de automóveis e ônibus carregado e intenso. Minha nora nasceu e viveu na cidade a vida toda e pedalar sempre foi sua opção para ir ao trabalho, até mesmo em dias chuvosos e frios. Está tão acostumada que, quando saímos do mesmo ponto juntas em direção ao mesmo lugar, ela s empre chega bem antes de mim. Normalmente opto pelo metrô.
Meu filho teve três bicicletas roubadas nos últimos dois anos. Os empregadores normalmente oferecem estacionamento para as bikes, sendo que os roubos normalmente acontecem quando eles saem para ir a um pub ou visitar amigos. A solução é fazer seguro. A cada boletim de ocorrência, a resposta da polícia é a mesma. “Não investigamos roubo de bicicleta. Eles são tantos por dia que, mesmo que tivéssemos cinco vezes mais contingente, não conseguiríamos atender”.
Semana passada, meu filho e minha nora foram a um pub em um bairro descolado – Angel – local onde a última bike deles desapareceu. Para não atrair mau agouro, estacionaram em um local diferente. Ficaram duas horas no pub, tempo suficiente para levarem a bike, deixando apenas o cadeado estourado.
Logo pela manhã, ela reconheceu a bike dela em um anúncio no Facebook e marcou de encontrar o rapaz se dizendo interessada na compra. Antes avisou a polícia; esperava uma escolta, mas isso só seria possível em, no mínimo, três dias, tempo suficiente para a bike trocar de mãos. Era hora do almoço quando uma amiga se posicionou na esquina oposta para gravar tudo, em áudio e som. Demonstrando muita tranquilidade, minha nora conversou, perguntou particularidades da mercadoria, há quanto tempo era dele, porque estava se desfazendo dela, enquanto observava as marcas e aranhões tão familiares. Teve a certeza de que ele estava sozinho e partiu para o passo seguinte do plano: “Posso dar uma volta para experimentar?”. “Sim, claro”.
Demorou alguns minutos para ele perceber que aquela mocinha não voltaria. Coçou a cabeça e começou a caminhar quando foi surpreendido pela amiga e cúmplice já montada em outra bike pronta para sair correndo. “Comprou a bike há um ano, né? Mentiroso!”
De lá as duas foram até a delegacia narrar o que haviam feito e deixar nas mãos dos policiais o vídeo com toda a epopeia registrada. Oficialmente, foram repreendidas pelos formais policiais britânicos que, no final, por debaixo dos panos, disseram que elas eram duas loucas, mas mereciam parabéns. De minha parte fiz meu papel e, como eles, chamei a atenção para o enorme perigo que ela e a amiga correram. Mas, no fundo, me reconheci nela, mesmo sabendo que melhor mesmo teria sido seguir o conselho de meu filho. “Larga pra lá. Resgata o seguro e esquece”.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.