
Micos de mãe
O som ensurdecedor do alarme me tirou da calmaria em que me encontrava
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Passei umas semanas com meu filho mais novo, que trabalha como advogado nos Estados Unidos. Inverno frio, sol com céu azul se revezando com neve leve (o suficiente para deixar todo mundo dentro de casa). Quando o tempo permitia, eu saía para um longo passeio de bicicleta pelos muitos parques dentro do perímetro urbano. Quando o frio doía nos ossos, mal animava a sair para colocar o lixo na rua. Estes dias eu passava na cozinha.
Foi fácil encontrar tudo o que precisava para fazer pratos bem brasileiros: mandioca, farinha de mandioca, canjiquinha, dendê, fubá, picanha, os miúdos de galinha que ele adora, por exemplo. A meta era deixar o freezer lotado de comida de mãe. No último dia, decidi fazer abobrinha em fatias bem finas passadas em fios de azeite bem quente. É um prato que despende muito tempo por que as fatias não podem ser colocadas umas sobre as outras na frigideira e ficam mais saborosas quando bem tostadas.
Rende pouco. Como eu queria deixar o suficiente para um bom tempo, fiquei horas naquela tarefa.
Como a maioria das casas lá, aquela também não tem paredes internas de tijolos e cimento. Brincamos que são casa de Palito, diferentes das nossas de Pedrito. Isso justifica o sistema de alarme, que é automaticamente acionado a qualquer sinal de fumaça. Eu cheguei a abrir as portas e janelas temendo que a casa ficasse cheirando a comida, mas foi tarde demais. O som ensurdecedor do alarme me tirou da calmaria em que me encontrava. Assustada, liguei para meu filho que, no primeiro apito, recebera notificação no celular de que algo acontecera na casa. “A culpa é da abobrinha”, expliquei enquanto ele remotamente desativava o alarme e simultaneamente recebia uma ligação da central de segurança.
Porém, por mais que tenhamos esclarecido o mal-entendido rapidamente, os bombeiros já estavam a caminho, não me dando tempo de processar toda aquela bagunça. Apesar de não ter sinal de fogo nem fumaça, desceram seis homens equipados até os dentes com picaretas e todo tipo de ferramenta. Os recebi com um sorriso bem amarelo, pedi mil desculpas, os convidei a entrar e acusei a abobrinha. O capitão experiente, muito gentil, sorriu de volta. “Isso acontece”.
Desliguei o fogão e fui me divertir com outras coisas, achando graça toda vez que me lembrava do mico que acabara de pagar. Quando meu filho e meu genro chegaram em casa para jantar, faltava “grelhar” os aspargos. A fumaça começou a subir, abrimos as portas. Tarde demais. Tudo de novo: toca o alarme ensurdecedor, a central liga, desativado e… claro, eles ressurgem em fração de minutos. Ameacei me esconder no banheiro, mas acabei recebendo-os novamente com um sorriso amarelo. O mesmo capitão, mostrei novamente as panelas sobre o fogão, agora culpando os aspargos. Recebi de volta o mesmo olhar gentil: “Isso acontece”.
Quero crer que ele entende até onde pode chegar carinho de mãe e ficou satisfeito em ver que ali tinha. Ao contrário de um de seus subordinados, bem jovem, que me lançou um terrível olhar de reprovação. Ansiava pela ação. Porém, naquele dia, o alarme foi falso por culpa do azeite.