Paola Salgado
Paola Salgado
É fundadora da PS Contrata, psicóloga, empresária e especialista em recrutamento estratégico. Atua conectando decisões de pessoas à cultura, à performance e ao crescimento dos negócios. Também é cofundadora do Connect Horse Líderes e conselheira do Progra
PAOLA SALGADO

Nós contra eles: política deixou explícito o que empresas sempre viveram

Polarização política ultrapassa as urnas e chega às empresas, reforçando divisões internas que desafiam lideranças e equipes

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O domingo chegou, passou, e a política continua com a gente. Nos corredores, no cafezinho, nos grupos de WhatsApp da equipe, ainda vamos passar mais alguns dias trazendo a eleição para o dia a dia das discussões.

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E é uma pena que, muitas vezes, as discussões políticas dentro das empresas só aconteçam em época eleitoral, e não como cultura. Eu acho, sim, que essa é uma pauta muito importante: o quanto as nossas questões políticas, sociais e econômicas são realmente discutidas com os nossos times? Não para escolher lado, mas para entender o cenário. É isso que forma times cada vez mais conscientes da realidade, que sabem tomar decisões, sobre as suas carreiras e dentro das empresas, olhando com senso crítico para cada escolha e suas consequências. Mas vamos deixar isso para uma outra pauta, afinal de contas não é exatamente sobre isso que eu quero falar nesta coluna hoje.


Voltando, então, às eleições. O "nós contra eles" virou explícito. Se você é de direita, você não gosta da esquerda. Se você é de esquerda, você não gosta da direita. E isso virou muito mais um discurso criado pela própria lógica política, para que a gente se transformasse numa briga, e não em todo mundo olhando para o mesmo lugar. A gente deixou de discutir ideias para discutir lados. E quando a conversa vira sobre lados, alguém sempre precisa perder.


Isso também aconteceu nas empresas, mas essa lógica sempre existiu. A diferença é que agora, com a política nos corredores, o discurso ficou ainda mais explícito. Desde que eu comecei, na indústria, era a produção contra o comercial e o administrativo. Eu sempre ouvia da produção: "se a gente parar, a empresa para". E o comercial respondia: "se a gente não vender, vocês não têm serviço para produzir". E a gente vai encontrar também a matriz contra a filial, os antigos contra os novos.


E talvez a divisão mais preocupante, e cada vez mais presente no dia a dia: o "eles" da liderança contra o "nós" do time. O patrão de um lado, o funcionário do outro. E, como eu já disse em outros textos, a política dos últimos anos trouxe isso com muito mais força para dentro das empresas. Aí deixa de ser uma rixa entre áreas e passa a ser uma divisão no coração da empresa.


E aqui volto à política: por que temos tanta dificuldade de fazer com que as empresas se tornem uma única cultura, com todo mundo trabalhando para o mesmo lugar?


Muitas vezes, a resposta está dentro da própria empresa. É a meta de uma área que compete com a da outra. É a informação que chega para uns e não chega para outros. É o resultado que o time nunca vê chegar até ele. E é o líder que escolhe um lado, inclusive na política, e leva isso para dentro do time. Quando isso acontece, é a própria liderança que cava a trincheira.


Assim como no Brasil, em que todos nós precisamos trabalhar por um futuro melhor para todos, dentro de uma empresa a gente tem que trabalhar para que seja bom para todo mundo. Porque quando a empresa está ganhando, com toda certeza, todo mundo está ganhando. Não existe produção vencedora com comercial perdendo. Não existe filial que cresce enquanto a matriz afunda.


E isso não acontece sozinho. Esse é um papel muito grande de três pilares: os donos, a gestão e o RH. São três pilares que têm que trabalhar diariamente juntos para que essa cultura seja única, para que ela seja deliberada, construída de propósito, e para que seja boa para todos. Os donos, dizendo para onde a empresa vai e mostrando, no exemplo, que estão no mesmo barco. A gestão, levando isso para o dia a dia das equipes. E o RH, cuidando para que as práticas, as conversas e as decisões falem a mesma língua.

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A eleição passa. O que fica é a escolha que a gente faz todos os dias dentro das empresas: continuar dividido em lados ou trabalhar, de verdade, para o mesmo lugar.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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