LC
Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicidade

Mais lidas

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Leia Mais

Essa história é bem contada em “Nós, o povo”, de Leo Huberman (1903-1968), uma interpretação da formação dos Estados Unidos pelo trabalho e pelas disputas em torno da riqueza. A imagem do país como um grande ímã de povos traduz a realidade de que sua expansão econômica foi inseparável da chegada de milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, profissões, culturas e condições sociais.

“Gente branca, preta, amarela, de pele escura; católicos, protestantes, huguenotes, quakers, batistas, metodistas, unitarianos, judeus; espanhóis, ingleses, alemães, franceses, noruegueses, suecos, dinamarqueses, chineses, japoneses, holandeses, boêmios, italianos, austríacos, eslavos, poloneses, romenos, russos – e a lista está apenas começando; fazendeiros, mineiros, aventureiros, soldados, marinheiros, ricos, pobres, mendigos, ladrões, sapateiros, alfaiates, atores, músicos, ministros religiosos, engenheiros, escritores, cantores, cavadores de valas, industriais, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, destaca Huberman.

Todos abriram caminhos, ergueram cidades e transformaram costumes. A diversidade da vida norte-americana resulta desse processo, cujo êxito decorre da tradução da identidade étnica pelo sonho de uma vida melhor. É um erro, porém, desconsiderar seus conflitos. A imigração voluntária não se confunde com o tráfico de africanos escravizados, assim como a expansão territorial não apaga a expropriação dos povos indígenas.

Na verdade, a hostilidade aos estrangeiros e as restrições raciais à entrada e à cidadania também fazem parte da trajetória dos Estados Unidos e suas elites, ingredientes incorporados por Trump à sua política. O estrangeiro sempre foi necessário à economia e, simultaneamente, apresentado como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade nacional.


Efeito catalisador

Trump fez da imigração um instrumento de mobilização eleitoral contra o outro. Fechar as fronteiras passou a funcionar como resposta para inseguranças que nascem do custo de vida, das transformações no trabalho e da perda de perspectivas de ascensão social. A perseguição a imigrantes, porém, atingiu famílias e comunidades muito além daqueles sujeitos à deportação. Foi uma agressão ao que existe de mais profundo e antropológico no imaginário da formação do povo norte-americano.

As eleições de 3 de novembro expuseram os limites dessa estratégia. Os democratas reconquistaram o Senado e a Câmara, avançando sobre territórios republicanos. James Talarico venceu no Texas; Roy Cooper conquistou a vaga da Carolina do Norte; Sherrod Brown recuperou espaço em Ohio. Kansas também mudou de lado. Inflação, denúncias de corrupção, a guerra com o Irã e a brutalidade do governo contra os hispânicos produziram uma rejeição que atravessou fronteiras sociais e partidárias. Rompeu-se a confiança nas grandes promessas feitas por Trump.

O afastamento de eleitores hispânicos em redutos históricos de Trump integra esse quadro. Muitos nasceram nos Estados Unidos, em famílias estabelecidas há gerações; somente os cidadãos naturalizados podem votar nas eleições federais. Não existe um voto latino automático. Como em toda eleição, renda, religião, segurança e expectativas econômicas pesam nas escolhas. Mas acontece que a frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump representa uma ameaça à democracia. Prometeu prosperidade, entregou conflitos e insegurança.

Surgiram novos líderes democratas. Talarico simboliza a possibilidade de disputar um estado há décadas identificado com os republicanos. Jon Ossoff, na Geórgia, ampliou sua força. Em Michigan, Jocelyn Benson emergiu na disputa pelo governo, enquanto o progressista Abdul El-Sayed avançou para o Senado. A onda azul favoreceu diferentes correntes, entre as quais a socialista, mas os democratas moderados demonstraram maior capacidade de ampliar alianças.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O desafio democrata é transformar a rejeição a Trump numa maioria duradoura. O novo Congresso poderá conter iniciativas e investigar abusos, mas Trump permanece na Casa Branca. E o trumpismo conserva suas raízes, ancorado no movimento MAGA (Make America Great Again) e no “supremacismo branco” de anglo-saxões e nórdicos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

eua midterms trump

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay