A Revolução Americana explica por que a democracia sobreviverá com Trump
"O atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos"
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Geralmente, quando vivemos uma situação que não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e das contradições que a produziram costuma oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
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Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.
Crescem o nacionalismo, o protecionismo, a polarização ideológica, a desinformação organizada e a desconfiança nas instituições representativas. Multiplicam-se guerras comerciais, conflitos armados e lideranças que desafiam abertamente as regras constitucionais. Esse paradoxo não é novo.
Em 1929, imaginou-se que o colapso financeiro decretaria o fim do capitalismo. Em 1989, a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética levaram Francis Fukuyama a anunciar o “fim da História”, entendendo que a democracia liberal havia triunfado definitivamente. Nenhuma dessas previsões resistiu ao tempo. O capitalismo reinventou-se sucessivas vezes. A China vai de vento em popa. A democracia, por sua vez, revelou-se muito mais frágil do que se imaginava, com a emergência de regimes iliberais. Seria essa crise a antevéspera do fim?
É sobre isso a série documental “O experimento americano” (The american experiment), em cinco episódios, dirigida por Brian Knappenberger e produzida por Tom Hanks, Gary Goetzman e Sarah Huisenga para a Netflix, a propósito dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos, uma reflexão imperdível sobre a sobrevivência da democracia. É um alento no contexto das loucuras políticas e ambição de poder autocrático do presidente Donald Trump e da plutocracia que organiza a partir da Casa Branca.
É aí que a figura de George Washington emerge como uma espécie de contraponto ou antídoto ao modelo de governante que Trump encarna. A dúvida que atormentava o líder revolucionário e primeiro presidente dos Estados Unidos em 1776 ainda inquieta o mundo contemporâneo: seria realmente possível uma sociedade governar a si mesma sem sucumbir às paixões políticas, aos interesses econômicos e à permanente disputa pelo poder?
A invenção política
A série não transforma os pais fundadores em heróis imaculados, nem reduz à revolução à escravidão, ao patriarcado e à exclusão social. Brian Knappenberger segue a trilha da melhor historiografia norte-americana: a independência americana foi, simultaneamente, uma revolução política e um projeto institucional incompleto até hoje.
A Revolução Americana foi fruto de uma invenção política e intelectual, não nasceu nos seus campos de batalha. As colônias desenvolveram uma profunda desconfiança em relação ao poder concentrado da Coroa britânica e passaram a defender que a liberdade somente poderia sobreviver mediante a limitação permanente da autoridade estatal. A ruptura promovida pelos revolucionários foi adotar o princípio da soberania popular.
Pela primeira vez uma grande nação afirmava que a autoridade não emanava de Deus nem da tradição aristocrática, mas do consentimento dos governados. O que problema foi traduzir essa soberania na estrutura e nas ações do Estado. A série mostra que essa extraordinária inovação política e social nasceu com uma contradição moral gigantesca. Os mesmos líderes que escreveram que “todos os homens são criados iguais” aceitavam a escravidão como parte da ordem econômica e do pacto de poder que fundou a grande nação.
A Constituição de 1787 incorporou o chamado Compromisso dos Três Quintos, que aumentava a representação política dos estados escravistas contabilizando parcialmente a população escravizada, embora ela permanecesse privada de qualquer direito. Essa incoerência ética era uma bomba-relógio que viria a explodir na Guerra Civil (1861-1865), no governo de Abraham Lincoln, que emancipou os escravos e lhes garantiu direito de voto.
A democracia americana sobreviveu não porque tenha resolvido suas contradições fundadoras, mas porque construiu instituições capazes de administrá-las e, lentamente, corrigi-las. A história dos Estados Unidos pode ser lida como um longo processo de ampliação dos direitos originalmente negados. A abolição da escravidão, as Emendas da Reconstrução, o sufrágio feminino, a legislação dos direitos civis e a expansão progressiva das garantias individuais representam a sua continuidade histórica.
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É impossível assistir à série sem pensar no presente. Donald Trump é o sujeito oculto na série não apenas por representar uma corrente política conservadora, mas porque colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos. A invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, simbolizou talvez a maior crise constitucional americana desde a Guerra Civil. Mas a República americana foi concebida para sobreviver a maus governantes. Talvez essa seja a mensagem mais poderosa da série.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
