LC
Luiz Carlos Azedo
ENTRE LINHAS

Ao lado de Sanches, Lula sobe o tom contra Trump em evento na Espanha

Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao presidente dos EUA e uma escalada retórica desnecessária que pode acarretar retaliações da Casa Branca

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha, Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). “Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tweet de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra" , disse.

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Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.


Ao elevar o tom contra Donald Trump em Barcelona, Lula mirou dois objetivos centrais: mitigar os efeitos econômicos internacionais sobre o cotidiano do eleitor e reconfigurar o debate eleitoral em torno da soberania e da política externa. "O que não pode é o mundo gastando 2 trilhões e 700 bilhões de dólares em armas e o povo passando fome", destacou Lula. A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre reúne chefes de Estado e de governo de diferentes regiões do mundo para debater o fortalecimento das instituições democráticas e os principais desafios globais à governança.


Criado em 2024 por iniciativa de líderes progressistas, entre eles Lula e o espanhol, Pedro Sánchez, o Fórum Democracia Sempre busca ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de movimentos autoritários e extremistas em diferentes países. A edição deste ano ocorre em meio a conflitos armados em diferentes regiões, como no Oriente Médio, e ao aumento das tensões políticas internacionais, incluindo embates envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


Lula aproveitou a oportunidade para aprofundar a polarização política com o presidente Jair Bolsonaro: "Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez". As pesquisas recentes mostram que o tempo fechou para Lula: há queda de popularidade e o risco eleitoral reduz a expectativa de poder. A oposição de direita, com Flávio Bolsonaro em destaque, avançou em cenários de segundo turno; em alguns levantamentos, o filho do ex-presidente está à frente fora da margem de erro. Lula acusou o golpe: "Mas ele é um problema nosso. Ele é um problema do povo brasileiro. Esse a gente lida com as nossas forças e com as nossas armas lá dentro", reconheceu.


Guerra e feijão


A escalada do conflito dos EUA e de Israel com o Irã já pressionou preços de energia e alimentos, com isso, a percepção pública sobre a economia se deteriora apesar de indicadores macroeconômicos relativamente sólidos. A alta do preço do petróleo e seus efeitos inflacionários atingem diretamente os custos de transporte, combustíveis e alimentos, amplificando a sensação de aperto sobre famílias endividadas e sobre os eleitores de renda média. Lula reforça o discurso de que não cede a interesses estrangeiros na esperança de atrair eleitores preocupados com autonomia econômica e identidade nacional.


Ao afirmar que “Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil”, Lula carrega nas tintas e transforma a geopolítica em apelo emocional. As pesquisas dirão se conseguirá mobilizar segmentos sociais que sentem o impacto imediato da inflação e da carestia, bem como eleitores que valorizam discurso de defesa nacional, embora com certeza mobilize apoio da base partidária e de atores progressistas internacionais, como no evento da Espanha. Entretanto, elevar o confronto retórico com os EUA pode bloquear canais diplomáticos para o Brasil e inviabilizar acordos técnicos e negociações comerciais e financeiras.


No plano interno, também pode funcionar como bumerangue, caso o discurso seja acolhido como um oportunismo eleitoral. Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima a Donald Trump, cuja imagem desce a ladeira nos Estados Unidos e no mundo, e uma escalada desnecessária que pode acarretar retaliações econômicas e políticas da Casa Branca. A escolha do evento em Barcelona e de Pedro Sánchez como interlocutor foi um gesto calculado. O ataque a Trump reforçou alianças ideológicas e atraiu cobertura internacional favorável.

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Mas o sucesso de Lula depende mesmo é de respostas efetivas aos problemas econômicos, sociais e políticos internos. O anúncio de subvenções a combustíveis e gás, linhas de crédito para setores estratégicos e tributação compensatória busca sinalizar ação concreta do governo para limitar os efeitos da guerra. Entretanto, as controvérsias dentro do próprio governo sobre a “taxa das blusinhas”, a subvenção à gasolina e a margem para esses e outros gastos revelam que o governo está propenso a adotar a retórica de uma “economia de guerra” para enfrentar as dificuldades eleitorais.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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