Guerra do Irã pode virar tempestade política perfeita nas eleições
A oposição, liderada por Flávio Bolsonaro, tende a explorar o aumento do custo de vida como narrativa central, independentemente de sua origem externa
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O impacto de guerras como a do Iraque na conjuntura política brasileira pode provocar uma tempestade perfeita nas eleições e alterar profundamente o atual cenário de polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, seu principal adversário. Favorito, Lula enfrenta um candidato em ascensão , e não é possível prever o impacto dos altos preços dos combustíveis sobre a inflação geral e a popularidade do governo. Além disso, há grande insatisfação popular com a violência e o envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), bem como com o distanciamento do Congresso em relação a medidas que possam mitigar os efeitos da guerra.
Para se ter uma ideia do que poderia acontecer, a crise do petróleo de 1973 foi o “ Milagre Econômico ” brasileiro, obrigando o governo Geisel (1974-1979) a lidar com alta inflação, recessão global e elevadas receitas externas. Para evitar a estagnação, o governo lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), intensificou a busca por petróleo (em alto-mar) e criou a Proálcool. Naquela época, também, os altos preços do petróleo desestabilizariam a balança comercial, levando à inflação e à desaceleração do crescimento econômico do país.
Geisel optou por manter investimentos robustos em infraestrutura, energia e indústrias de base para tentar proteger a economia. Para financiar o II PND e pagar pelo petróleo importado, o Brasil aumentou suas receitas externas, buscou alternativas energéticas e expandiu a exploração em alto-mar.
A crise econômica, contudo, agravou as tensões sociais, contribuindo para o surgimento de operações sérias, como o ABC São Paulo. O resultado político foi imediato: uma expressiva derrota do regime nas eleições de 1974, revelando a sensibilidade do eleitorado ao impacto econômico de choques externos, mas não ao contexto político de um regime autoritário.
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Levando em conta as diferenças históricas, os sinais atuais corroboram dinâmicas semelhantes. Ou seja, uma “tempestade perfeita”. A guerra no Oriente Médio provocou um aumento significativo nos preços do diesel no Brasil , próximo a 20% desde o início do conflito, e reajustes nas refinarias da Petrobras que tendem a se reproduzir em toda a cadeia econômica. Como o diesel é o combustível mais importante para a logística nacional, pressiona os preços dos alimentos, fretes e serviços, reduz a renda real e afeta diretamente a percepção do consumidor.
O surgimento de uma nova perspectiva em dois aspectos demonstra a gravidade do momento. Ao contrário das mobilizações políticas recentes, o próprio movimento reconhece que, desta vez, tem motivação econômica. Isso impede que o governo desqualifique o movimento como mera ação oposicionista. Em caso de paralisia, mesmo que parcial, os efeitos podem ser rápidos e devastadores: escassez, aumento da pressão inflacionária, interrupção das cadeias produtivas e forte desgaste político, como ocorreu em 2018, quando a crise contribuiu para desorganizar o sistema político e abrir caminho para a ascensão do bolsonarismo.
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Combinação de crises
A resistência de dois governadores em reduzir o consumo de combustível do ICMS é uma expressão de um conflito distributivo em tempos de crise. Os estados dependem dessa receita e não demonstram disposição para abri-la, mesmo sob pressão do governo federal. O pacto federativo em situações de emergência é frágil e se transmite aos eleitores a imagem de um Estado fragmentado, incapaz de reagir de forma coordenada a choques externos. Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional se mantém distante das medidas mais sensíveis, evitando assumir custos políticos em ano eleitoral, o que aprofunda a percepção de paralisia decisória.
Para completar, a expectativa de redução acelerada do imposto legal está sendo frustrada. O Banco Central adotou uma postura cautelosa. O Copom foi reduzido à alíquota básica legal, a Selic, em 0,25 ponto percentual, fixada em 14,75%, devido às incertezas internacionais. Esta é a primeira redução desde maio de 2024, mantendo o Brasil como o segundo país com maior impacto no mundo. A guerra dificulta qualquer planejamento econômico, ou que afete investimentos, crédito e consumo, com inevitáveis ??reflexos políticos.
A oposição, liderada por Flávio Bolsonaro, tende a explorar o aumento do custo de vida como narrativa central, independentemente de sua origem externa. A experiência brasileira mostra que os governos raramente conseguem transferir a responsabilidade pelos choques inflacionários para o cenário internacional, ou talvez para a percepção do consumidor doméstico: o preço na bomba do supermercado. Ao mesmo tempo, Lula precisa administrar seu relacionamento com motoristas e governadores, que se recusam a suspender a cobrança do ICMS sobre combustíveis.
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Choques externos de preços, risco de paralisia logística, conflitos federativos, incerteza monetária e exploração política da inflação formam uma “tempestade perfeita”, uma combinação de crises de segurança com grande impacto no humor da sociedade. Se a guerra se prolongar e os preços do petróleo continuarem em trajetória ascendente, o governo terá que escolher entre intervir com maior urgência para conter os preços, com custos fiscais e riscos de distorções, ou preservar o equilíbrio macroeconômico, enfrentando erosão política. Em qualquer um dos dois cenários, com margem de erro mínima. Como em 1974, a economia pode ser um fator decisivo nas eleições e, mais uma vez, um conflito internacional pode redesenhar o mapa político brasileiro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
