Por que empresas repetem problemas mesmo depois de trocar pessoas?
Antes de concluir que o problema é falta de competência, comportamento ou perfil, olhe também para a relação entre autoridade, função, história e posição
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Quando algo não funciona dentro de uma empresa, a reação mais comum é procurar o responsável. O líder que não entrega, o gerente que não mobiliza a equipe, o sócio que trava decisões. Se alguém não está produzindo como deveria, será que basta substituí-lo e o problema será resolvido?
E quando ele sai, outra pessoa assume e, algum tempo depois, o mesmo conflito reaparece? É aí que o olhar sistêmico propõe outra pergunta: o que, nesse sistema empresarial, continua produzindo resultado similar, mesmo trocando pessoas?
Na abordagem desenvolvida por Bert Hellinger, a constelação familiar observa o indivíduo como parte de um sistema marcado por vínculos, posições e histórias anteriores. Nessa perspectiva, pertencimento, ordem e equilíbrio são princípios centrais. Quando essas relações se confundem, podem surgir conflitos, inversões de papéis e padrões de repetição.
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Esse olhar também passou a ser aplicado às organizações. Empresa não é família, mas também tem história, hierarquia e vínculos. Há quem fundou, quem construiu, quem chegou depois, quem saiu e quem ainda influencia decisões mesmo sem ocupar formalmente o mesmo lugar.
A constelação sistêmica empresarial observa justamente essa configuração. Em vez de se limitar ao comportamento de uma pessoa, procura entender como autoridade, função e responsabilidade estão distribuídas. Quem realmente decide? Quem responde pelo resultado? Há alguém tentando resolver um conflito que pertence a outro nível da empresa?
Trata-se de uma perspectiva de leitura das relações organizacionais. Não substitui diagnósticos técnicos de gestão, governança, estratégia ou liderança - seu papel é ampliar o olhar sobre aquilo que o que está no papel nem sempre mostra.
Imagine um diretor que assume uma área depois da saída de seu antecessor. Ele encontra clientes insatisfeitos, processos mal definidos e problemas que começaram antes de sua chegada. Meses depois, ainda conduz a área com cautela excessiva, como se precisasse responder pessoalmente por tudo o que herdou. Hesita para cobrar, demora a decidir e age como se ainda precisasse provar que merece estar ali.
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A empresa trocou o profissional, mas não necessariamente resolveu o que estava ligado àquela função.
No livro "Ordens do sucesso", Hellinger trabalha uma distinção importante entre reconhecer aquilo que veio antes e permanecer preso a uma culpa que não pertence ao presente. Quem assume uma função, precisa lidar com os problemas que encontrou. Mas assumir o presente não significa transformar o passado de outra gestão em dívida pessoal.
Na minha atuação como mediadora de conflito e consteladora, observo que o conflito muitas vezes aparece em uma pessoa sem necessariamente começar nela. Por isso, antes de concluir que o problema é falta de competência, comportamento ou perfil, considero importante olhar também para a relação entre autoridade, função, história e posição.
Na constelação empresarial, observamos fundadores, sócios, sucessores, lideranças e acontecimentos relevantes da trajetória do negócio. Quem veio antes? Como ocorreram determinadas saídas? Quem tem a palavra final? Há funções que perderam clareza ao longo do tempo?
Quando profissionais diferentes passam pela mesma função e enfrentam dificuldades semelhantes, vale prestar atenção ao que permanece enquanto as pessoas mudam. Talvez a questão não esteja apenas em quem se senta na cadeira, mas no lugar que essa cadeira ocupa dentro da organização.
Para quem lidera, fica uma pergunta que considero essencial: o que você faria diferente hoje se parasse de agir como se ainda precisasse pagar por um problema que não criou?
Algumas histórias da empresa estão nos contratos, nas atas e nos balanços. Outras permanecem nas relações, nas decisões adiadas e nos conflitos que atravessam diferentes gestões.
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Quando o mesmo problema reaparece com pessoas diferentes, trocar mais uma pessoa pode apenas mudar o personagem. A pergunta mais importante talvez seja: o que, dentro da empresa, continua sem solução e segue se repetindo?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
