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SIGA NOA história da tecnologia musical é, em grande parte, uma história de padronização. Um dos exemplos foi a síntese FM da Yamaha com o lendário teclado DX7, que, usando algoritmos de Stanford, simulava sons naturais. Instrumentos como flauta, gaita, violinos e pianos elétricos foram esquecidos por alguns anos por conta dessa inovação. A sonoridade desse instrumento era sinônimo de qualidade e moldou a música pop dos anos 80. A chegada da Inteligência Artificial está nos assustando, pois ela “simula” muitas coisas que os humanos fazem. Enquanto somente algumas pessoas eram afetadas, poucos reclamaram, mas agora todos nós estamos envolvidos.
Para entender por que a música atual soa tão parecida, precisamos olhar para a biologia. Nosso cérebro é uma máquina de reconhecimento de padrões. Existe um conceito na psicoacústica chamado Fluidez de Processamento: quando reconhecemos uma progressão harmônica ou um ritmo familiar, o cérebro consome menos energia e libera dopamina. É uma recompensa biológica pelo “conforto”, é o que sentimos quando escutamos um “estilo musical” que gostamos.
A IA é treinada justamente nesse gosto médio. Ela analisa bilhões de dados para identificar o que causou essa liberação de dopamina no passado. O risco do uso excessivo desse truque é transformarmos a música em um "alimento ultraprocessado”, fácil de digerir, mas sem aquela novidade deliciosa. A arte que tem vida longa é aquela que oferece algo diferente; que quebra a expectativa no momento exato para que o conforto não se torne tédio. Por conta desse efeito é que alguns estilos saem de moda e outros se reinventam o tempo todo.
Muitos se assustam com a IA, mas, na música, ela é a evolução direta dos teclados arranjadores. Esses que escutamos a todo momento no estilo “Pisadinha”. Esses instrumentos executam uma análise de probabilidade em tempo real: ao ler uma nota na mão esquerda, o equipamento decide, com base em um estilo pré-programado, o que a bateria e o baixo devem tocar. A IA moderna apenas expandiu esse modelo, trocando circuitos limitados pela imensidão da nuvem.
A criação musical caminha sobre uma corda bamba. Se for igual ao que já existe, é plágio, mas o algoritmo adora ficar próximo desse limite. Se for diferente demais, incomoda. O ouvido humano rejeita. A magia está no equilíbrio, na capacidade de criar algo novo que respeite as definições que o ser humano gosta. É o "erro" humano intencional ou uma nota musical inesperada que a IA, em sua busca pela perfeição, tende a eliminar.
O futuro não precisa ser uma batalha entre o homem e a máquina, mas uma “colaboração”. A IA deve ser vista como um assistente de produção de altíssimo nível. Ela pode cuidar do “trabalho chato”, gerar variações de arranjos, testar harmonias complexas em segundos ou organizar o fluxo de trabalho. Um comparação simples é que quase todo mundo gosta de cozinhar, mas ninguém quer lavar as panelas.
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Nesta amizade, o ser humano mantém o papel mais nobre: o de curador e provocador. A máquina entrega a eficiência e a base, mas o músico entrega a alma, a história e, principalmente, a imperfeição necessária para que a música deixe de ser apenas um padrão de ondas sonoras e se torne um arrepio na pele. No fim, a tecnologia é apenas mais um algoritmo; a arte continua sendo uma escolha humana.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
