Juntar os cacos antes de quebrar a garrafa
Cair na pilha da terra arrasada, que tudo feito é ruim ou do passado imutável é aceitar e trabalhar para que não tenhamos a chance de mudar o futuro
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O tsunami passou pela Toca da Raposa levando as esperanças de 2026, mas também as estruturas subdimensionadas e os sistemas de segurança frágeis. Se de um lado devastou o planejamento de curto prazo, de outro, deixou boas lições a serem recolhidas – se ainda restar inteligência e pulso para que os alicerces não sejam carcomidos pelo desespero.
Os próximos meios de semanas vazios, de hoje até o final da temporada, serão aquele “cantinho do pensamento” que muitos de nossos pais – e nós mesmos – reservam para as crianças, como castigo por aquilo que, sabidamente, não deveriam ter feito.
Já houve protestos da Nação Azul fora e dentro do Mineirão; massacre midiático – da aldeia e da crônica esportiva nacional –; a tradicional “malhação” da torcida adversária quando vence um rival e até o presidente da SAF Cruzeiro na beira da arquibancada tentando argumentar com quem acredita que falta a ele pulso firme para cobrar.
Além de todas essas ondas gigantescas, ainda tivemos o prejuízo milionário pelas desclassificações precoces tanto na Copa do Brasil quanto da Libertadores. O que mais poderia acontecer? Ficar fora da Libertadores 2027?
Essa possibilidade deve estar fora de cogitação – é o que se espera. Mas resumir todo um trabalho – iniciado há mais de dois anos – às falhas evidenciadas tanto no embate contra o Flamengo quanto contra o Atlético de Lourdes, seria uma estupidez das mais perigosas para o processo de recuperação do Cruzeiro, iniciado com o fim da Era Ronaldo Nazário.
Durante esse período de “cantinho do pensamento”, é preciso entender, rapidamente, que, mesmo com todos esses cacos espalhados pela Toca da Raposa nas duas últimas semanas, a garrafa não foi quebrada.
Existe algo sólido, construído (e em permanente construção) com planejamento e propósito de vida, que não pode ser medido apenas por duas das consequências (as traumáticas desclassificações), por mais que essas tenham sido tão devastadoras aos olhos do presente.
Mudar o passado é muito diferente de execrá-lo. Aí está o ponto central da análise. Existe um provérbio iorubá que diz: “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje.”
Os iorubás (ou nagôs) constituem um dos maiores grupos étnicos-linguísticos da África Ocidental. São marcados pela construção de cidades e reinos altamente organizados. Um deles, o Reino de Ifé (onde fica hoje a Nigéria), por exemplo, é considerado o “berço da civilização”.
Para os iorubás/nagôs, o tempo não é algo linear (passado-presente-futuro). Para eles, o tempo é cíclico e por isso, a analogia do “atirar uma pedra no presente para alterar a algo do passado” torna real e factível a possibilidade de influenciar o que irá acontecer no futuro.
Aí está o motivo de evocar o provérbio iorubá/nagô para alertar sobre o momento atual do Cruzeiro. O mais importante é ter a consciência de que o erro do passado pode, sim, ser alterado.
Sendo o tempo circular – e não linear –, é muito importante que as concepções, atitudes, planejamentos e ações do passado não sejam vistos com um fracasso imutável que um tempo linear nos guardaria. A pedra lançada deve ter o objetivo de ressignificar as estratégias, e não jogados fora ou execrados.
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Cair na pilha da terra arrasada, da garrafa quebrada, tudo feito aqui é ruim ou do passado imutável, é aceitar e trabalhar para que não tenhamos a chance de mudar o futuro. Seria por exemplo, depois do episódio de domingo passado, acreditar que Matheus Pereira e Kaio Jorge jamais voltarão a formar uma dupla sintonizada e exitosa.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
