Salve, Jorge
O português Artur Jorge, que não tem absolutamente nada de santo, chega à Toca da Raposa com a missão de operar um quase milagre
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Enquanto alguns aguardavam – com esperança e esquecimento das mazelas – a chegada do novo treinador do Cruzeiro, no aeroporto de Confins, outros, como eu, se apegam a qualquer mensagem de consolo para tentar afastar o misto de indignação e desilusão quanto ao atual momento do Time do Povo Mineiro.
“Salve, Jorge”. Li a pequena frase escrita por minha amiga Thaís Vilela, cruzeirense das mais brutas e uma guerreira daquelas ao estilo “muro de concreto ruim de derrubar”.
A postagem dela, em tom irônico, me fez pensar na oração do santo guerreiro da Capadócia. Corri os olhos por ela e como cruzeirense – no momento – exasperado, me identifiquei logo com a primeira estrofe da súplica:
“Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança, abra os meus caminhos.”
O português Artur Jorge, que não tem absolutamente nada de santo, chega à Toca da Raposa com a missão de operar um quase milagre. Não! Não estou me referindo a retirar o Cruzeiro da zona do rebaixamento do Campeonato Brasileiro. Confesso que tenho convicção que isso se resolverá rapidamente, sem precisar de intervenção divina. Não por conta do nosso elenco, mas pela dificuldade financeira de outros times no campeonato. Afinal, no futebol mercantilizado e em certames longos, como o Brasileirão, dinheiro vale mais do que milagres.
O grande prodígio que desafiará a capacidade de Artur Jorge será fazer com que o time de salários estratosféricos se sinta envergonhado pelo papel medíocre que tem desempenhado nesses três primeiros meses da temporada. Em linguajar popularesco, caberá ao novo comandante celeste o desafio imediato de fazer os jogadores terem vergonha na cara.
É inadmissível a atual situação do Cruzeiro. A cada análise, culpados diferentes são apontados. Mas em todas elas, uma constatação é uníssona. Cabe aos jogadores (com seus salários astronômicos) assumirem uma postura de adultos, com toda capacidade de se perceberem como únicos responsáveis por tudo isso, até aqui.
Ver Pedrinho do SuperPovão BH chorando no Mineirão, no último domingo, sensibilizou a muitos. Poeticamente e dramaticamente, trouxe empatia, pois, para esses, passou a imagem de “ser um dos nossos”, torcedores com o coração partido.
Todo guerreiro chora, sim! Mas Pedro Lourenço, ao se tornar dono da SAF Cruzeiro, deixou de ser “só um dos nossos”. Não pode apenas lamentar e sofrer com a falta de entrega do elenco que lutou muito para formar.
Ou seja, depois de ter entregado sua vida e parte de seu patrimônio para colocar o Cruzeiro Campeão de volta nos trilhos da busca por títulos nacionais e internacionais, agora, ele precisa também ser enérgico. Guerrear na cobrança para que seus subalternos honrem a camisa, a história e busquem as vitórias contra todos os adversários, mesmo que esses tentem, mas não nos alcancem.
“Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos, não me vejam, e nem em pensamentos, eles possam me fazer mal.”
Se de santo o nosso Jorge não tem nada, da posição de guerreiro não poderá se furtar, pois o desafio de recuperar o elenco (e dar a ele vergonha na cara) será como enfrentar o dragão de hálito venenoso com a lança de São Jorge.
“Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.”
Não há mais tempo ou justificativa para o Cruzeiro deixar de recuperar o jogo competitivo de forma imediata.
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“Glorioso São Jorge, ajudai-me a superar todo o desânimo e alcançar a graça que tanto preciso. Amém.”
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
