
A volta às aulas do Raposão
Pegou o tênis e a camisa do Cruzeiro dos anos escolares anteriores. Surrados. Carregados de marcas e histórias
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Muitas mãozinhas tocavam seus braços peludos e a camisa azul com estrelas. Pelo orifício dos olhos na cabeçorra, podia ver os alunos fazendo carinho no seu nariz pontudo. Os lábios reais e os fictícios da máscara retribuíam sorrindo. Era mais uma visita do Raposão a uma escola em Minas Gerais.
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23 de novembro de 2003. Dois meses depois. Leo “Botafogo” Anchieta, funcionário do Cruzeiro, que então encarnava o mascote do clube, estava de folga, em Curitiba. Como torcedor, nas arquibancadas do Pinheirão, assistiu a vitória por 3 a 1 sobre o Paraná Clube. Uma espécie de miniférias antes de voltar a Belo Horizonte, onde, na semana seguinte, o Time do Povo Mineiro se tornaria campeão brasileiro.
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Férias é sempre alegria, seja para a criançada ou para Leo, ex-criança e ex-Raposão. Mas à medida que os dias longe da escola passam, a pontadinha de saudade dos colegas de sala vai se avolumando em constelação.
Se “o futebol é a metáfora da vida”, como cunhou Luiz Antônio Simas, o estádio é a escola. Onde companheiros de arquibancada são colegas da sala de aula na qual a matéria preferida é amar eternamente o clube do coração.
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Sábado passado, contra o Mirassol, se completava um mês de férias entre a lição amarga da desclassificação para o América e a abertura do Brasileirão. Era dia da “volta às aulas” para os cruzeirenses. Leo foi até o guarda-roupas em busca do uniforme. Não é aluno de comprar novos a cada temporada letiva. Pegou o tênis e a camisa do Cruzeiro dos anos escolares anteriores. Surrados. Carregados de marcas e histórias.
“O Cruzeiro vai perder”, brincou o porteiro. Leo encarou a brincadeira com sorriso, pois acompanhar o Cabuloso não é questão de ganhar ou perder; de recreio ou prova final. Quando o jogo é no Mineirão, sua caderneta ganha sempre o carimbo azul de “presença”.
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Mas exatamente na tarde do sábado de volta às aulas tinha um compromisso. Aniversário do sobrinho com a esposa Gigi e as duas filhas, Beatriz e Marina. Um mês de férias – sem jogo – e chegaria atrasado ao Mineirão.
Saiu antes do “parabéns”. Queria ter levado as meninas. Tudo bem que a paixão pelas cinco estrelas já está no coraçãozinho delas, mas daí a competir com o pula-pula, os brigadeiros e o “é big, é big, é big; é hora, é hora, é hora”, já era demais. Dessa vez, Leo foi para a escola sozinho.
Teve medo de não chegar a tempo da resenha de pré-aula, que sempre acontece na esplanada da Escola Gigante da Pampulha, antes do sinal tocar.
Ainda no táxi, sacou o telefone. Abriu o grupo “Minas é Azul”, criado no Whatsapp para agendar os encontros com os colegas de sala, e não para falar das aulas-jogos, dos professores-jogadores ou das notas do time nas arguições no gramado.
“Me esperem. Não entrem antes de mim!”, digitou, junto com a figurinha de dois garotinhos desajeitados correndo até se abraçarem para matar a saudade. Foi o que Leo fez quando chegou e encontrou Rafael, Gabriel, Fuscaldi, Marcão, Mateus e tantos outros da turma do fundão da Sala Vermelho Superior. A tal alegria incontida, como diria o professor de oratória, Alberto Rodrigues.
Passaram pelos olhos atentos do disciplinário. Entregaram a caderneta para a tia da portaria. Pararam na cantina do pátio e merendaram sortidos copos de suco de cevada.
Dentro da sala de tapete verde, a aula começou tranquila. Dudu e Gabriel acertaram as duas primeiras questões. Mas como quem volta de férias, o time ficou preguiçoso. Cássio ainda evitou a primeira advertência, mas na segunda, gol do Mirassol.
Daí em diante, Leo não tirou o olhar do relógio. Torcendo para a sirene tocar e anunciar o fim do primeiro dia de aula. Ufa! Tocou! Vitória por 2 a 1.
Antes de se despedir dos colegas, fitou o aviso no quadro negro do celular: “Unión de Santa Fé”. Mal acabaram as férias e dali a três dias já teria prova de espanhol pela Copa Sul-Americana.
Voltou a pé para casa do sogro para encontrar suas três garotas, Gigi, Beatriz e Marina. A felicidade pela vitória na volta às aulas era tão grande que nem uma nota ruim na Argentina seria capaz de lhe arrancar o sorriso. Nem dos próprios lábios e tampouco do focinho do Raposão de outrora.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.