Segurança mete-lhe a bicuda. É o grande campeão
Sugere usar a cabeça no lugar do punho cerrado que um dia fora do Rei e que agora prestava serviços desprovidos de qualquer nobreza
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Eu nunca assisti a uma luta de UFC, embora já tenha participado de uma como lutador. Por um mês me preparei para o combate. Primeiro na academia de Anderson Silva, no Rio de Janeiro, de onde fui rapidamente saído, tão logo ficou evidente a penosa qualidade daquele peso pena.
Fui treinar no Complexo do Alemão, na Equipe Relma. Com o tempo exíguo, fizemos como Karatê Kid – aprenderia um único golpe fatal, na esperança de encaixá-lo e vencer por nocaute. Precisava também encontrar um nome de lutador, e Relma, só depois percebi a galhofa, escolheu Fred Chassi de Frango. Pensei que tava bom, por motivos de Galo.
A luta, creia, passou no Sportv, infiltrada entre tantas outras. Ao anunciarem minha entrada no octógono, teve início a construção da derrota. Vitimado pelo ataque de riso, o locutor tropeçava no meu Chassi, sem acreditar na alcunha daquele desafiante em seu voo de galinha.
Quando me viu, pernas de graveto e peito côncavo, chamou o público a observar meu physique de rola, sim, a rolinha, aquele passarinho que jamais chegará a pinto, menos ainda ao frango. Com o psicológico abalado, passei a fugir do oponente como o Piu-Piu do Frajola. Até que, engaiolado num canto, deu-se o teto preto do abalroamento impiedoso, cerca de 45 segundos depois. Foi quando me aposentei com a boa marca de apenas uma derrota – em uma luta, e daí?
Meu filho aprecia bastante o UFC, não sei onde errei, e no domingo passado assistimos à luta. Só me animei porque a preliminar era um Atlético e Cruzeiro, mas isso não vem ao caso. Como um Fábio Júnior, o ex-jogador, a experiência no octógono me autoriza a fazer algumas observações sobre a disputa do cinturão.
No início do card, o lutador Everson, reconhecidamente hábil com os pés, levou pro chão o adversário. Em golpe de joelho ao estilo George Floyd, amassou-o no chão, na tentativa do “submission”. Foi quando se deu o quiproquó total. “Virou guerra!”, como diria o maldito locutor se tivesse logrado sucesso meu ataque de Karatê Kid.
Chamo a atenção para dois movimentos que podem ter passado despercebidos ao leigo do vale-tudo. De um lado, Matheus Pereira escolheu não fazer barba nem cabelo – retirou-se com seu bigode como um Gandhi a vencer pela técnica da não-violência. De outro, Gustavo Scarpa, mão espalmada, carteirada de Jedi, amigo do amigo do Yoda, buscou reunir A Força. O império, no entanto, contra-ataca. E a partir daí o pau foi realmente quebrântico.
Hulk, que a essa altura já estava despido da persona de Bruce Banner, atacou covardemente por trás, em golpe descrito no Código Penal como Tentativa de Homicídio com Dolo Eventual. Sua ação, embora arriscada, potencialmente letal, foi decisiva para o que me parece ser o desfecho que definiu o destino do cinturão.
Refiro-me ao lutador conhecido como Segurança, sem dúvida a grande e improvável revelação da noite. Sua postura é lúcida, seus gestos precisos convidam à razão. Sugere usar a cabeça no lugar do punho cerrado que um dia fora do Rei e que agora prestava serviços desprovidos de qualquer nobreza.
De repente, o cavalo selado, a oportunidade que bate à porta do armário. O Segurança vê a assistência de Hulk chegar limpa à sua frente. Até minha avó faria, pensa. Milésimos de segundo separam Segurança da fama mundial.
Um filme passa na cabeça de Segurança. A infância difícil, a vida condenada à coadjuvância. Embora armário, sempre invisível. O cavalo selado é Lucas Romero, já na posição que Napoleão perdeu a guerra, tombando como uma estátua de Stalin. Segurança mete-lhe a bicuda, e sai para o abraço. É o grande campeão da noite, o dono do cinturão!
Veja o poder do esporte. O sucesso do memorável card de domingo espalha-se pelas ruas da cidade, com jabs entre vizinhos, socos laterais ao estilo Júnior Alonso desferidos entre transeuntes, overhands ao modo Hulk pegam a gente de surpresa. Voadoras qualificadas – middle e high kicks – são reproduzidas nas estações de Metrô a lembrar Renan Lodi e Kaio Jorge, sem dúvida as grandes promessas do vale-tudo.
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Na noite seguinte, em nova preliminar para novo UFC, crianças entram em campo fazendo gestos de decapitação e arrancando com os dentes cabeças de galos de borracha. Mesmo sendo o Chassi de Frango, não levei para o lado pessoal. Preferi enxergar toda a potencialidade do esporte e da educação como salvação para os nossos jovens. Parabéns a todos os envolvidos na promoção do evento de domingo passado!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
