Naquele mar de gente, moravam todas as esperanças
Concentrados atrás do gol, havia uma torcida. Acachapantemente aglomerados em todo o resto, botando gente pelo ladrão, havia um povo
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Em outros tempos, tomávamos o 2004 na altura das avenidas Nossa Senhora do Carmo com Uruguai e partíamos rumo ao Mineirão como se fôssemos o destacamento do Hemingway a retomar Paris, todos efusivamente bêbados, assim que acabou a guerra.
À medida que avançávamos, o “balaio” ganhava ares de um hospício itinerante, a balangar perigosamente sua carcaça puída por entre motos e Fuscas conduzidas por outros bêbados – pais e tios no carreto da criançada, espremida em porta-malas e prontas para virar patê no caso de um abalroamento que a ninguém ocorria. Todo mundo louco, todo mundo fumando cigarro de filtro amarelo, todo mundo sem cinto, todo mundo na mais completa galoucura.
“Se essa porra não virar”, começava o hino, “eu chego lá”. E dale ameaçar o trocador com o acesso à porta dos fundos. Se vigarista fosse, a fatura cairia no colo (não propriamente no colo) do motorista. O furdunço se tornaria particularmente surreal ao cruzar o centro da cidade. Os mais destemidos se lançavam ao surf rodoviário Lagoinha adentro. No andar de baixo, a turba ensandecida no exercício mais bárbaro da atleticanidade.
Quando a ala psiquiátrica enfim chegava à Abrahão Caram, as duas portas basculantes mostravam-se insuficientes para o desembarque de seus internos. Pessoas então se lançavam pelas janelas, como baratas em fuga na dedetização da fossa. Não raro a levar consigo o assento do trocador, que ao menos preservara o anel inferior na pândega da travessia.
Adentrávamos o Mineirão como se a fila fosse uma invenção tecnológica para a qual éramos analfabetos totais. A Massa evoluía na passarela como num gangbang em que se era acossado por trás ao mesmo tempo em que se acossava o sujeito da frente, além de proteger a carteira e carregar o chope. Por vezes se levitava do asfalto, levado pela total confusão de corpos a cruzar roletas inúteis. Se eu não fosse muito Galo, o que teria sido do meu chassi de frango?
De repente estávamos a subir as escadas que acessam os corredores do estádio, tomados por uma alegria tão arrebatadora, que nos fazia produzir os mais guturais gritos de Galo que se tem notícia. O grito que se lança a outro, e a outro, e a outro, naquele conluio entre desconhecidos que ali se irmanavam no mais puro sentimento que viríamos a experimentar em nossas vidas.
Como o Hemingway finalmente chegado ao Hotel Ritz, bebíamos todo o bar no afã incontrolável de empurrar o nosso Galo querido para o título inevitável. Mais um lance de escada, e se desvelava o tapete verde e a arquibancada preenchida pelo mundo animal: de um lado, a cachorrada; de outro, a bicharada.
Eram outros tempos, outras consciências. Mas ali, naquela quadra da história, empurrá-los para o espaço cada vez mais diminuto, enquanto a Massa crescia como o pão que vai ao forno, tinha algo de uma revolução popular – a tomada do território pelo povão, pretos e pobres, brancos e ricos a celebrar a utopia da igualdade, tão simbolicamente trajados na sua beca preta e branca.
Concentrados atrás do gol, havia uma torcida. Acachapantemente aglomerados em todo o resto, botando gente pelo ladrão, havia um povo. Esse povo tinha uma religião, e seu Deus era Reinaldo. Aquele mar de gente era capaz da festa mais bonita do mundo. Coitada da Sapucaí perto daquele pessoal.
Havia ritos muito bem definidos. Como a fila de bandeiras a entrar na arquibancada, uma depois da outra, desde o túnel mais distante até o encontro com as cativas, do outro lado. Até que toda a extensão do degrau mais baixo estivesse preenchida com os trapos da nossa fé. Sem clubismo, aquilo era muito diferente. Quando jogava no Cruzeiro, Nelinho levou suas filhas para ver um clássico. Elas ficaram magnetizadas por aquela festa incomum. Viraram atleticanas.
Naquele mar de gente moravam todas as esperanças que se pudesse ter. A vida podia ser bela. A democracia podia existir. A irmandade podia ser natural. Desconhecidos podiam se abraçar e beijar. Corpos podiam se tocar livremente. Pretos podiam ser iguais aos brancos. Pobres podiam ocupar o mesmo espaço dos ricos. Bastava a bola na casinha para que explodíssemos na mais incontida felicidade. O ideal de felicidade do Questionário Proust.
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Naqueles tempos, com o Galo campeão, voltava com meus primos no Opala do meu tio. Era difícil progredir no trânsito em meio ao esfuziante carnaval. Meu tio permitia que cada atleticano cruzasse à frente do nosso carro. Seu irmão botava o corpo pra fora da janela e gritava: “Vai, pode passar, campeão, você merece!”. No dia seguinte, o mundo podia ser melhor, e a vida prestava.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
