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Fred Melo Paiva
Fred Melo Paiva
DA ARQUIBANCADA

O mesmo sonho sob aquele velho voal

Ao contrário do torcedor da selecinha, eu já fui hexa e me lembro tintim por tintim

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Tive de revirar velhas gavetas para me lembrar do “sonho do hexa”. Ele estava lá, amarrotado e cheirando à naftalina, incrustado nas duas amarelinhas que ainda me restam, a oficial de 1986 e uma retrô, de 58, do Pelé. Pobre amarelinha, transformada no babador de velhos fascistas a espumar de ódio. Deus me livre e guarde, melhor seria atirá-las à fogueira, de modo a evitar algum encosto.

 

 

Em todo caso, estou agora sonhando com o hexa, e talvez fosse possível, nesse fundo de poço, quer dizer, da gaveta, reaver uma faixa, uma bandeira, uma bandana alusiva ao “sonho do hexa” em sua fase pré-pesadelo. E, nesse Carnaval estendido, quem sabe botar a improvável bandana, vestir a camisa listrada e sair por aí, pontuando como uma Beija-Flor no quesito Fantasia.

Acabei por desistir, o Carnaval anda prafrentex demais, vai que um bêbado esquerdopata, um comedor de criancinhas do Bloco da Ursal, achasse por bem dar com o taco de beisebol na testa do incauto folião, a exemplo de Inglourious Basterds. Até explicar que se trata de Atlético, que o “sonho do hexa” agora é nosso, vai saber o que teria sido da minha testa de amolar machado.

 

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Ao contrário do torcedor da selecinha, eu já fui hexa e me lembro tintim por tintim. Sim, sou velho o suficiente, o target perfeito para tio bolsominion no grupo de zap da família, ainda bem que li uma centena de livros, cem a mais do que esse pessoal. Mas como ia dizendo, eu tava lá, eu vim, vi e venci.

Na minha memória afetiva, o ponto alto daquele hexa foi o penta de 82. Assisti de cadeira numerada, porque o meu pai, inimigo do futebol, achou de usurpar meus tios da função de me levar ao Mineirão para a grande finalíssiima contra o arquifreguês. Arquibancada, porém, nem pensar. Nunca imaginei que aquela musiquinha poderia funcionar melhor com a letra virada de ponta-cabeça: “Vou sentar na numerada pra sentir mais emoção”. E assim foi.

 

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Em nenhuma outra ocasião pude ver de frente a Massa em desvario. Antes e depois, eu tava sempre no meio dela, como a farinha no pão. De frente, cara a cara, foi a primeira e única vez. Feliz o adversário que pode contemplá-la. Coitada da Sapucaí perto daquilo. Ficamos, eu e meu pai, absortos diante daquele Círio de Nazaré, aquele amontoado de corpos em convulsão, a Massa em estado de arte, com suas bandeiras e foguetes, papel picado e a Marselhesa. Aos 10 anos, nunca mais esqueci aquele dia.

Aquela chuva que caiu. Ela descia como um véu de noiva do concreto armado que fazia as vezes de telhado do velho Mineirão. E cobria, sem cobrir, o povão do outro lado. Conferia ao povaréu convulsionado uma aura de sonho sob aquele voal. O sonho do penta, bem antes da Família Scolari roubá-lo da gente sem o devido copywright.

O arquifreguês fez 1 a 0. Renato Dramático empatou de cabeça. Aos 55 segundos do segundo tempo, naquele toró, Nelinho bateu uma falta do meio de campo. Bateu roupa o goleirão, e Catatau, segunda assistência do jogo, rolou para Reinaldo na pequena área. Com o gol aberto, foi como se o tempo tivesse parado.

 

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Deu tempo de olhar para o meu pai, que, disposto a me encher o saco, tinha por esporte falar mal do Rei – “ele só sabe cair”, dizia, para o meu desespero e revolta. Com o gol escancarado, Reinaldo fez o gol do título. Puta que o pariu, meus senhores, esfregaria aquilo na fuça do meu velho pai, não estivesse ele boquiaberto com a Massa do outro lado a celebrar o Rei, certamente o maior espetáculo que ele viu na vida. E eu também.

Agora estamos nós, a partir de hoje, a brigar de novo pelo hexa. Muita coisa mudou de lá pra cá. O povão foi expulso do estádio, embora resista. O estádio virou arena. Eu cresci, meu pai envelheceu. A ditadura caiu. O Crüzëirö caiu. O Galo ganhou. Fiquei amigo do Reinaldo. Meu pai deu um abraço nele. A Massa continua a mesma – a mesma paixão, o mesmo sentimento que não se explica, contra tudo e contra todos, incluindo aqueles que nos compraram sem perceber que nunca estivemos à venda.

O mesmo sonho sob aquele velho voal.

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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