
Assim viveu Cachorralo, um ícone do Carnaval
Gostava mesmo era do Carnaval de Diamantina. Seu ápice acontecia no Beco do Mota, quando os Becudos, lá pelas tantas, mandavam o Hino do Galo
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Quando eu comecei a namorar a Fabi, filha de um inglês com uma japonesa, e portanto um tipo de gringa, achei por bem impressioná-la com um Carnaval daqueles. Eu era – sou – um folião experimentado. Tinha feito o ensino fundamental nas matinês do Minas, o ensino médio atrás do Sapo Seco em Diamantina, e a faculdade nas ruas do Rio de Janeiro, do Bola Preta ao Boitatá. Fui Salgueiro e fui Mangueira, mas da última vez que virei folha apeguei-me definitivamente à Portela, que considerava o Galo das escolas de samba. Nunca ganhava. Se me vir de azul, saiba que é por motivos de Portela.
Pois bem, peguei a Fabizinha e nos mandamos pro Rio. Levei na bagagem a minha já clássica fantasia de Cachorralo – uma crista de Galo (com maiúscula, já que adornada com um escudão) e uma máscara de cachorro. A máscara me obrigava a beber cerveja de canudinho. A crista torrava minha moleira naquele sol inclemente.
À medida que eu evoluía na avenida, gritos de Galo ecoavam entre os foliões. Estamos falando de 2006, a gente na série B, mas estranhamente transbordados de um atleticanismo exacerbado, um orgulho desmedido desde que 60 mil tinham cantado o hino na hora da queda. A minha crista, altiva como o último dos moicanos, era um aglutinador dos gritos de Galo. A Fabi começou a achar aquilo um pouco esquisito.
Lá pelas tantas, gringa escolada no críquete, entendida do ludopédio assim como eu da física quântica, ela não se aguentou: “Cara, eu tô aqui de colombina, mas ninguém grita colombiiiiiiiiiiina... Por que essas pessoas gritam gaaaaaaaalooo pra você???” Fiquei espantado: de onde vinha aquela mina que não sabia haver um Galo? Sim, a Fabi desconhecia a existência do Atlético. Com o orgulho ferido de morte, expliquei a ela sobre a paixão da minha vida. E achei que findava ali, ainda na pré-temporada, o nosso romance.
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Nos meses seguintes passei a chorar de forma acintosa a cada vitória, num crescendo que acompanhava a ascensão na tabela. A Fabi me olhava boquiaberta: “Tá chorando de novo?” Sempre que ela perguntava, uma crista imaginária brotava da minha carcaça craniana. Ficava com vergonha. Chorava escondido no banheiro. Fizemos o Francisco e ele é tão atleticano que parece já ter nascido com a crista dentro da cabeça.
Quando a Fabi morreu, num domingo de Carnaval, ela era completamente atleticana. Em sua cerimônia de cremação, providenciaram uma foto dela com uma fantasia de Carnaval, porque o Carnaval tinha se tornado uma de suas paixões. Nunca mais vesti minha crista de Galo.
Bem antes da Fabi, vivendo ainda em Belo Horizonte, na ocasião o túmulo do samba, gostava mesmo era do Carnaval de Diamantina. Seu ápice acontecia no Beco do Mota, quando os Becudos, lá pelas tantas, mandavam o Hino do Galo. Na cozinha tinha o batuque do meu primo Juninho, da Super Força Viva, a Galoucura antes de haver Galoucura.
Assim como a Fabi, o Juninho também morreu. Mas, se estão certos os ianomamis e alguém só morre quando morre a última pessoa a se lembrar dela, então estão bem vivos o Juninho e os Becudos do Mota a cantar Vicente Motta e a sua Marselhesa. Obrigado, Carnaval!
Depois, morando em São Paulo, a primeira capital a recuperar seu Carnaval de rua, tive a felicidade de ver a Galosampa, consulado do Galo, incluir seu bloco no calendário oficial da cidade. Antes disso, me vi obrigado a gostar da Vai-Vai, evidentemente que por motivos de amor sincero ao alvinegro.
Na tarde de domingo em que o Galo caiu, me mandei para o ensaio da Vai-Vai vestindo o manto e morto de chorar. Dei um aperto de saudade no meu tamborim. Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas. Dei meu tempo de espera para a marcação, e cantei. Minha vida na avenida sem empolgação. Vai manter a tradição. Vai meu bloco tristeza e pé no chão.
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Agora cá estou, na Bahia, a lembrar de velhos carnavais. Esperando o bloco que vai sair. Esperando o Galo campeão. Esperando renascer o Canto da Alvorada, a escola de samba do Galo, 17 vezes campeã. Onde estará a minha crista? Tudo se entrelaça na cabeça do atleticano patológico: como a teia tênue da manhã, meus carnavais foram tecidos por muitos gritos de Galo. Sem a crista, vou vestir a camisa listrada e sair por aí. São Victor que proteja e guarde! Gaaaaalooo!!!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.