Etiene Martins
Etiene Martins
Jornalista, pesquisadora das relações étnico-raciais e doutoranda em Comunicação e Cultura na UFRJ
ARTIGO

Quem o seu silêncio protege, Ludmilla?

Cuidado com a técnica de se fingir de morta, porque muitas abusaram e entraram em coma

Publicidade

Mais lidas

Dizem que o indiferente é o peso morto da história. Assistindo à sua indiferença diante da violência racial sofrida por uma mulher preta como você, me vejo obrigada a concordar com essa afirmação. Eu me pergunto como você, que foi chamada de "macaca" em rede nacional por um jornalista racista, consegue circular publicamente ao lado de Rodrigo Branco como se nada tivesse acontecido.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Como?

Porque, se o racismo lhe causou dor, e causou, nós vimos, por que mesmo o racismo dirigido contra Thelminha e Maju Coutinho parece não produzir em você o mesmo incômodo? Essa pergunta não é sobre amizade. É sobre responsabilidade.

Você não deve nada ao público sobre sua vida privada. Mas deve alguma reflexão quando sua vida pública comunica que uma condenação por racismo não é grave o suficiente para impedir vínculos afetivos, celebrações, likes e fotografias.

Há uma diferença enorme entre acreditar na possibilidade de transformação e oferecer absolvição social sem que a sociedade sequer tenha visto um compromisso consistente com a reparação. Nós, pessoas negras, sabemos que o racismo raramente acontece diante das câmeras. Ele acontece nas piadas, nas escolhas, nas oportunidades negadas, nos estereótipos repetidos e, muitas vezes, na forma como determinadas pessoas continuam sendo acolhidas socialmente apesar da violência que produziram.

Foi exatamente isso que Rodrigo Branco fez. Quando afirmou que Thelminha só recebia apoio por ser uma "negra coitada" e que Maju Coutinho ocupava seu espaço por causa da cor da pele, ele não ofendeu apenas duas mulheres. Ele atualizou uma das mais antigas estratégias do racismo brasileiro: retirar das pessoas negras o mérito de suas conquistas e transformá-las em beneficiárias de uma suposta benevolência.

Talvez por isso fico tão indignada ao vê-lo cercado por celebridades negras. Porque a mensagem que fica é a de que o racismo tem prazo de validade quando deixa de atingir diretamente quem está na fotografia. Você conhece o preço do racismo. Conhece a violência de ser reduzida à cor da pele. Conhece a solidão que acompanha esses episódios, quando muitas pessoas preferem relativizar a agressão em vez de confrontar o agressor.

Por isso sua postura produz tanta frustração. Não porque esperamos perfeição de você. Mas porque esperamos coerência. Não era você que estava cobrando posicionamento da emissora de TV que contratou o jornalista que te atacou? E o seu posicionamento? Cadê? Provavelmente você conhece a frase da filósofa Angela Davis que diz que, numa sociedade racista, não basta não ser racista; é preciso ser antirracista. O antirracismo não se mede apenas pelos discursos que fazemos quando somos vítimas. Mede-se, sobretudo, pelas escolhas que fazemos quando a vítima é outra pessoa. É relativamente simples denunciar o racismo quando ele nos atravessa. Difícil é romper com os privilégios, os afetos e as conveniências que mantêm o racismo confortável para quem o pratica.

Essa carta não nasce do desejo de cancelar você. Nasce do desejo de lembrar que pessoas negras também podem reproduzir o silêncio que sustenta estruturas racistas. E o silêncio nunca é neutro. Ele sempre favorece alguém.

Espero, sinceramente, que você reflita sobre isso. Não por Thelminha apenas. Não por Maju apenas. Mas porque toda vez que uma mulher negra escolhe ignorar a violência sofrida por outra mulher negra, a branquitude não precisa fazer esforço algum para manter seu pacto funcionando. Ela apenas assiste e usufrui.

O pacto da branquitude não se sustenta apenas pelas ações de pessoas brancas. Ele também sobrevive graças aos silêncios que consegue produzir, às exceções que consegue fabricar e às consciências que consegue anestesiar. Quando uma mulher negra escolhe tratar o racismo sofrido por outra mulher negra como um detalhe contornável, esse pacto vence mais uma vez. Porque o racismo nunca foi apenas sobre quem agride. É também sobre quem assiste, quem relativiza, quem acolhe o agressor antes de acolher a vítima e quem transforma a dor do outro em um inconveniente menor do que o desconforto de romper uma amizade.

Foi isso que aprendi com mulheres como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Cida Bento: o antirracismo não é uma identidade. É uma prática. E práticas são reveladas pelas escolhas que fazemos quando ninguém está nos obrigando a fazê-las.

Você não precisa responder a esta carta. Mas espero, sinceramente, que um dia responda a si mesma uma pergunta simples: O que dói mais: romper com um suposto amigo racista ou assistir, em silêncio, ao sofrimento de uma mulher negra que foi alvo do racismo dele? A resposta para essa pergunta talvez diga menos sobre Rodrigo Branco do que sobre o tipo de compromisso que cada um de nós escolhe assumir na luta contra o racismo.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

E pra terminar essa carta vou parafrasear uma verso do grandioso Cuti: "cuidado com a técnica de se fingir de morta, porque muitas abusaram e entraram em coma".

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

antirracismo etiene-martins ludmilla racismo

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay