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Etiene Martins
Etiene Martins
Jornalista, pesquisadora das relações étnico-raciais e doutoranda em Comunicação e Cultura na UFRJ
ARTIGO

Eu não tenho medo de falar a verdade sobre os brancos

''Podem pular, espernear, chorar, mas não podem negar a história: meu povo foi, sim, escravizado''

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Nego Bispo com sua imensa sabedoria me alertou sobre o quanto o branco gosta de falar difícil com o intuito de não se fazer entender e com a arrogância de dizer que nos ensinou aquilo que estamos cansados de saber. Ele estava se remetendo aos que chegavam no quilombo dele e queriam ensinar agroecologia para os quilombolas. Ele atento percebeu que eles deram o nome de agroecologia para o que eles faziam há muito tempo e se chamava roça de quilombo. A questão que essa tática da branquitude não fica restrita nesse episódio, se estende em outros assuntos, exemplo disso é que recentemente eles substituíram os populares adjetivos mimimi e vitimista pelo adjetivo identitário.

 

 

Para eles identitária é toda pauta que não esteja restrita às demandas das pessoas brancas, do sexo masculino e heterossexual. Certo? Seguindo essa lógica questionar a disparidade salarial entre homens brancos e mulheres negras ocupando o mesmo cargo e com a mesma qualificação é um ato identitário. Denunciar o racismo e as suas consequências na vida das pessoas negras é identitário. Reivindicar maior representatividade do corpo negro na política e nos meios de comunicação também é ser identitário. Propor incluir as demandas da população transexual sejam elas nas políticas de edução, saúde e inserção no mercado de trabalho também é considerado identitário. O racista está sofisticando seu discurso manso e violento atribuindo a quem questiona uma política voltada preferencialmente ao branco mediano o título de identitarista ou/e essencialista.

 

 

O racista tem a astucia de se reinventar e se adequar para minar os avanços e acessos possíveis de serem alcançados pela população negra. Isso para garantir a manutenção de seus privilégios históricos. Geralmente eles agem dizendo que estão fazendo o que fazem para o nosso bem. Lembra de quando a política de reserva de vagas nas universidades para negros e negras estavam para ser aprovadas o alvoroço que foi? Membros dessa mesma branquitude dita progressista se uniram e fizeram um abaixo assinado se posicionando contra essa política que coloriu as universidades e proporcionou a mobilidade educacional e social de milhares de pessoas. Utilizavam discursos como o "que basta se esforçar para chegar lá”, invocando o tal do mérito ou o de que a qualidade das universidades públicas iriam despencar com a nossa entrada. Eu lembro que o Ali kamel foi um que engrossou esse discurso escrevendo o livro “Não Somos Racistas: Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. Uma obra em que ele afirma que racismo são casos isolados e o mesmo nega todas as opressões que ainda hoje atingem o povo negro coletivamente. Essa obra foi uma reação contra a política de educação direcionada à população negra. O que mais me intrigou no livro é o fato dele não ter bibliografia, portanto foi toda escrita dentro dos achismos e percepções dele.

 

A branquitude progressista da época que ocupava quase a totalidade das vagas nas universidades públicas alegaram que as cotas discriminavam os brancos, um argumento falido muito parecido com o racismo reverso de hoje. A muito contragosto dos brancos a cota deixou de ser um projeto e se tornou uma lei, uma lei muito bem sucedida por sinal, mesmo quando a branquitude busca sabotá-la fraudando e se declarando negra sem ser. Além das universidades muitos deles também tentam e às vezes conseguem fraudar os concursos públicos e até mesmo as candidaturas eleitorais que possuem reservas de verba para fortalecer as candidaturas negras. Por esses e outros motivos não podemos esquecer da história vivida pelo nosso povo até aqui, as relações estabelecidas e suas consequências.

 

 

 

 

É importante delimitar quem é o oprimido e quem é o opressor, quem faz o trabalho insalubre na escala 6X1 e quem lucra com ela. É necessário saber que esse sistema não começou ontem, mas desde que os portugueses aqui chegaram. Não temos o direito de ser alienados, nem esse direito nós temos, mas é o que essa parcela busca que sejamos. No discurso da meritocracia querem nos convencer que os descendentes de escravizados possuem o mesmo acesso que os descendentes de escravocratas. Aí eu te pergunto: qual é o mérito de quem herdou um patrimônio milionário de seu ascendente escravocrata? É justo que essas pessoas ocupem espaços nas universidades públicas e a parcela negra não, em razão dessa desigualdade social e econômica disfarçada de mérito? Pode deixar que eu respondo: não, não é justo.

 

Quando eu busco compartilhar na minha coluna as desigualdades e a herança invisível, mas concreta da violência que foi a escravidão no texto “Por que 22 anos de ditadura incomodam mais que 22 anos de escravidão?” onde eu afirmo que "se existiram escravizados também existiram escravocratas e a herança se faz presente para ambos os lados”. E utilizei como exemplo a corporeidade de um único descendente de escravocrata e expliquei para os meus leitores o porque que no imaginário popular a ditadura militar importa mais que a escravidão um exercito da branquitude se levantou contra mim nas redes sociais. Eles já me conheciam? Não. Mas não me pergunte como o ator Pedro Cardoso teve acesso ao meu texto e as minhas palavras o tocou e isso o motivou publicar no seu perfil do Instagram. Poucas horas depois meu direct estava lotado de mensagens hostis de pessoas brancas que se sentiram atacadas e de outras pessoas que se sentiram contempladas. Atacadas porque eu disse a verdade.

 

Para se autopromoverem em cima do meu texto, três colunistas (Lygia Maria, Wilson Gomes, Mariliz Pereira Jorge) do jornal Folha de São Paulo fizeram críticas rasas e infundadas. A primeira disse que o meu discurso é perigoso e me enquadrou em um crime fictício elaborado pelos racistas chamado racismo reverso, o segundo fez uma cópia muito mal feita do texto da primeira me taxando como essencialista, já a terceira exige de mim uma solução de problemas reais ocasionados por quem se parece com ela. Eles ainda esperam que caiamos eternamente nessa armadilha de ficar ressocializando branco racista. No que depender de mim vão ter que esperar sentados porque em pé vão cansar. Como diria minha vovó: tô com o tanque cheio de roupa pra lavar, não tenho tempo pra isso não.

 

Tem um ditado de Ogum, que eu concordo, que diz que quem tem medo vive pela metade. É por isso que eu não tenho medo de nada, nem de ninguém, muito menos de falar a verdade sobre os brancos. Pode pular, espernear, chorar, mas não podem negar a história. Nã podem negar que meu povo foi sim escravizado, consequentemente, torturado e estuprado pelos europeus e a herança disso para nós povo preto é a desigualdade social que nos encarcerou na base da pirâmide econômica e social e garante que caras como o Walter Salles permaneçam no topo dela. O mais interessantes são a quantidade das pessoas que me acusam de sentir raiva, como se fosse desmérito sentir raiva de uma estrutura tão violenta e cruel como essa. Queria o quê? Que eu amasse quem fez isso com o meu povo? Que eu perdoasse? Não, eu não sou resignada e não aceito as violências construídas em prol do pacto narcísico da branquitude e nem faço parte da parcela negra que engrossa esse coro almejando ilusoriamente serem aceitos pelos brancos.

 

 

 

 

 

 

 

 



As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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