Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ELEONORA CRUZ SANTOS

PISA, ataques a escolas e a deseducação em vertigem

O mundo urge a necessidade de multiplicar educadores com a sensibilidade de Darcy Ribeiro, homem que integrava a educação à vida, ao esporte, à alimentação

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O último resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) surpreende mais pelo declínio médio dos países da OCDE, que respondem por 40 dos 91 países integrantes dessa avaliação, do que pelo pífio e recorrente desempenho de uma década dos estudantes brasileiros. A crise educacional bate à porta das grandes nações, viola os direitos à educação nos países em conflito e mostra a incapacidade dos gestores em lidar com as novas formas de aprendizado.

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O PISA traz resultados que merecem reflexão, em especial pela dificuldade ou incapacidade dos profissionais da educação de superarem os desafios de atrair e reter o interesse dos alunos. Em uma era dominada, cada vez mais, por desenfreados estímulos à dispersão e ao consumo rápido de informações, a difusão da tecnologia tem reduzido, paradoxalmente, as sinapses e a capacidade de estímulo, enquanto rouba o tempo de formação e de desenvolvimento cognitivo.

Os resultados brasileiros seguem uma espécie de incapacidade inercial, e seus resultados precisam ser contextualizados relativamente à queda contínua do desempenho dos países integrantes da OCDE. Trocando em miúdos, o Brasil mantém sua vexatória posição enquanto os países mais ricos seguem assustadora tendência de queda – em leitura, perda de 28 pontos em 10 anos; em matemática, queda de 22 pontos; e em ciências, de 7 pontos. Cada 20 pontos equivale a 1 ano de estudo.

Desde 2000, ano em que o País passou a integrar o PISA, os estudantes brasileiros sempre alcançam resultados expressivamente inferiores à média daqueles que integram os países da OCDE, em todas as áreas: matemática, leitura e ciências. Em uma métrica mais nova – resolução de problemas por meio de ferramentas computacionais –, a performance brasileira foi das piores e, além de inferior à média da OCDE, ficou cerca de 50% abaixo de países como China, Singapura e Japão.

Obter resultados tão vergonhosos em áreas que determinam a estrutura do pensamento e a capacidade cognitiva, de lógica e de reflexão, como ciência, matemática e leitura, há mais de uma década, não pode gerar espanto quando o fator tecnologia entra em curso. É bom lembrar que o Brasil foi dos últimos países a retomar o ensino básico presencial pós-pandemia, e a maioria dos estados da federação não dispunha de tecnologia computacional para atender seus alunos.

Para além da ausência de equipamentos, a preparação da escola para aprendizagem digital posiciona o Brasil no limite inferior negativo da distribuição (-0,86), enquanto a média da OCDE é de -0,03 e o melhor resultado alcança 0,98 (Emirados Árabes). Adicionalmente à falta de estrutura, tem-se a escassez de docentes, e nesse quesito o Brasil responde com 50% em suas escolas, e a OCDE, com 29%.

Do lado dos estímulos, seja familiar, seja do ambiente escolar, os resultados brasileiros só reforçam os sinais do desastre educacional: o apoio familiar – interesse na escola e na aprendizagem – é negativo, assim como o senso de pertencimento na escola; e o absenteísmo escolar é mais que o dobro da média da OCDE – 69% ante 34% –, enquanto na Coreia do Sul é quase nulo. Não à toa, a importância percebida do aprendizado na escola é quase o dobro na Coreia, comparado ao Brasil.

Baixa estrutura de equipamentos, deficiência de corpo docente, desinteresse familiar pelos estudos dos filhos e elevado absenteísmo também apresentam elevada correlação com negativa adaptabilidade cognitiva em situações de incerteza. O estudante brasileiro é vítima de um sistema que, não por falta de recursos, mas seguramente por sua má alocação, padece de uma inércia estrutural de formação que se nutre de desigualdades de acesso e de toda sorte de fatores do ambiente.

A violência tornou-se elemento desafiador nos ambientes públicos de ensino básico. Enquanto, no caso brasileiro, o avanço do tráfico de drogas nas regiões periféricas mais violentas, ou mesmo nas favelas ao entorno dos bairros mais "privilegiados", chegou também às salas de aula, 2 dos 91 países que participam do PISA reportaram aumento alarmante de ataques a escolas – a Ucrânia, o país com maior número de ataques, e a Palestina, o segundo local mais afetado.

Pergunto-me que efeito têm os gritos abafados das autoridades das Nações Unidas ante as violências contra a formação de crianças e adolescentes. No dia 08 de setembro, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco – celebrou o 60º aniversário do Dia Internacional da Alfabetização. Nessa mesma data, a Unesco alertou para o fato de que, em 2024, ao menos 739 milhões de jovens e adultos ainda não possuíam capacidades básicas para ler e escrever.

No dia seguinte, 09 de setembro, a Assembleia Geral da ONU celebrou o sexto aniversário do Dia Internacional para Proteger a Educação contra Ataques. No entanto, nos últimos dois anos, mais de 8,5 mil ofensivas em todo o mundo atingiram escolas, estudantes e professores. Os dados sobre os ataques só aumentaram nos últimos anos.

Em tempos violentos, em situações de inércia e falta de perspectiva, há de se esperar, de se carregar esperança. Alunos aprendendo na praia de Gaza, tendo como pano de fundo os escombros dos edifícios e das vidas que ali residiam, é um exemplo genuíno da esperança que habita a alma de pessoas que carregam sede de aprendizado e genuína força de viver.

O mundo urge a necessidade de multiplicar educadores com a sensibilidade de Darcy Ribeiro, homem que integrava a educação à vida, ao esporte, à alimentação e ao acolhimento. Por mais ensino com humanidade e empatia!

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Como nas palavras do músico moçambicano Stewart Sukuma, que também é embaixador da Boa Vontade do Fundo da ONU para a Infância – o Unicef –, "(…) uma educação verde, uma educação consciente e uma educação com sustentabilidade são mais necessárias do que ensinar as pessoas sobre física, química e matemática. É preciso ensinar as pessoas a serem mais humanas, a imprimirem mais amor e mais consciência naquilo que fazem." Certamente, os jovens serão assim mais motivados.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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