
Mobilidade social e a falácia meritocrática
Tive a felicidade de, na mesma semana, assistir ao filme e ler o livro. Recomendo ambos, sobretudo pela clareza de exposição de um tema cada vez mais urgente
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Na semana passada, o economista Michael França e o sociólogo Fillipi Nascimento lançaram o livro “A loteria do nascimento”. Na mesma semana em que li o livro, assisti ao filme “A prisioneira de Bordeaux”- um retrato da perpetuação contemporânea das desigualdades. Curiosamente o roteiro do filme seria perfeito para o caso brasileiro, mas se passa na França do século XXI. Em ambos, os desafios e a incapacidade de mobilidade social são a tônica das narrativas.
Em 1957, o laureado Prêmio Nobel de Economia Gary Becker apresentou a “teoria da discriminação” cuja ideia básica é que a escolha dos empregadores passa pela adoção de critérios como raça, gênero, origem social etc. e, com isso, provocam a perpetuação das desigualdades estruturais no mercado de trabalho. Pouco depois, Kenneth Arrow, outro Nobel de Economia, acrescentou o conceito de discriminação estatística – as escolhas ocorrem pela ausência de informação perfeita.
Em 1981, Becker lançou “Um tratado sobre a família” – clássico da microeconomia que discute a estrutura racional por trás do comportamento das famílias. Becker é a base da discussão sobre discriminação e sobre os processos de reprodução da pobreza (ou da riqueza). No capítulo 5 desse tratado, mostra que crianças oriundas de famílias bem sucedidas têm maior probabilidade de serem mais bem-sucedidas devido ao maior tempo gasto consigo mesmas e às heranças culturais e genéticas.
Michael França e Fillipi Nascimento são exemplos vivos da capacidade de sonhar e romper com a bolha da pobreza, com o baixo acesso à cultura e com a herança genética que mantém escravizada a maior parte da população pobre e negra do Brasil. Como dizem os autores, “o local do nascimento não apenas molda o nosso acesso a recursos e oportunidades, mas também exerce influência sobre nossas expectativas, sonhos e a forma como nos conectamos com o mundo”.
Ler França e Nascimento foi como relembrar o quanto os economistas Becker e Arrow foram responsáveis pela minha formação e pela construção de linhas de pesquisa, que hoje fazem morada no meu inconsciente, direcionando minhas escolhas e interesses. França e Nascimento trazem novos referenciais, bem atuais, de estudos que abordam a reprodução intergeracional da pobreza e as práticas discriminatórias contra as minorias em uma escrita fácil e acessível.
E como a vida imita a arte, ou a arte imita a vida – essa discussão fica por conta dos filósofos –, o filme “A prisioneira de Bordeaux” pode ser o paralelo entre a escrita de França e Nascimento, para o caso brasileiro, e o roteiro de Courrège e Begaudeau, para o caso francês. Ele nos dá a dimensão global do problema, uma vez que, seja nos Estados Unidos, seja na Europa, o chamado Ocidente desenvolvido, tais questões estão cada vez mais presentes.
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Em “A prisioneira de Bordeaux”, Alma, interpretada por Isabelle Huppert, e Mina, por Hafsia Herzi, são duas mulheres oriundas de classes sociais bem distintas e que têm em comum o fato de seus maridos estarem reclusos na mesma prisão. Alma, mulher rica e elegante, convida Mina, mulher árabe, bonita, porém castigada pela vida, para viver em sua casa com seus 2 filhos. E no crescente da convivência “fraterna”, os conflitos de classe são desvelados.
Quem já teve a oportunidade de ler Édouard Louis ou Annie Ernaux e caminhar pelo mundo das “estratificação social e da discriminação” na sociedade francesa não vai se surpreender com o filme. Quem vive a realidade arraigada da estratificação e da discriminação no Brasil vai ler o livro e entender facilmente a narrativa. O que não é fácil de digerir, em ambas as situações, é a desigualdade estrutural que impede a mobilidade social.
O diálogo perfeito entre o livro “A loteria do nascimento” e o filme “A prisioneira de Bordeaux” está no silêncio da estrutura que perpetua as diferenças e que impede a mobilidade social. A falácia da equação do sucesso do indivíduo contemporâneo tem sido nutrida por coaches, redes sociais de influencers de sucesso e discursos de meritocracia construídos para mascarar o fato de que o ponto de partida é determinante na performance e na trajetória.
Sustentar os discursos de sucesso pela resiliência meritocrática é tentar gerar insumos motivacionais enquanto se nega que a estrutura social condena quem está no final da fila – que chegou por último não porque não se esforçou o suficiente, mas porque faltou água, alimento e calçado adequado para participar da “corrida do sucesso”. O discurso da meritocracia ignora os princípios básicos da teoria da discriminação do economista Gary Becker.
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Há de se reconhecer, e isso os autores França e Nascimento fazem, que a abertura das universidades públicas para a classe mais baixa, predominantemente negra (preta e parda), no Brasil, tem permitido um redesenho dos espaços do pensar e da cultura. E que o crescimento de expoentes oriundos de classes baixas – Anita é um exemplo dos autores – traz novas formas socioculturais de construção de identidades e relações.
De fato, o país vive há quase duas décadas a inserção lenta das classes mais pobres em espaços que antes eram exclusivamente da elite branca. Porém, os problemas de base persistem: as notas dos alunos cotistas via de regra das escolas públicas -, pelo resultado do Enem, são inferiores às dos alunos das particulares; e os déficits de aprendizagem e de formação cultural mais ampla seguem como entraves mesmo para aqueles que romperam a bolha social.
Não darei “spoiler” nem do livro, nem do filme. Tive a felicidade de, na mesma semana, assistir ao filme e ler o livro. Recomendo ambos, sobretudo pela clareza de exposição de um tema cada vez mais urgente. Sigo sem resposta à questão de como podemos permanecer com tantas disparidades sociais, de raça e de gênero em um mundo que insiste em nutrir relações de poder pela desigualdade de acesso e pela falácia discursiva da meritocracia.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.