
O que deveria nos assombrar não é o "tarifaço"
Corre-se o risco do "tarifaço" fazer cócegas ante tantos desafios estruturais que o mundo insiste em nos apresentar e que teimamos em negar
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Uma consulta simples ao sistema oficial para extração das estatísticas do comércio exterior brasileiro de bens – Comex Stat - permite evidenciar que, há pelo menos três décadas, os maiores volumes financeiros da pauta de exportação brasileira revelam nosso atraso em termos de desenvolvimento econômico. Há décadas que exportamos produtos agrícolas – soja, café, sucos de laranja – e minerais, além de alguns processados que se caracterizam como industrializados.
- Relembre, de 2013: Para José Serra, ciclo desenvolvimento econômico acabou
Enquanto a China, ao longo dessas mesmas décadas, tem se tornado uma potência tecnológica, ganhamos mercados exportadores com avanço do cultivo de soja – cuja produtividade não acompanha o volume de terras cultivadas, conforme evidenciou o Instituto Escolhas em estudo comentado recentemente neste espaço -, e com extração mineral de forte impacto climático. O “tarifaço” nos faz olhar para nossa pauta exportadora e escancara o que já é sabido, mas pouco dito: somos primários.
As atitudes imperialistas do atual presidente dos Estados Unidos estão causando tensões comerciais em todo o comércio mundial. O Brasil não é a maior vítima, embora tenha sido um dos mais taxados até o momento – lembrando que a Índia acabou de sofrer retaliações da mesma magnitude por manter relações comerciais com a Rússia. Mesmo com tarifas bem mais baixas, a União Europeia sofrerá grandes impactos, sobretudo sua maior potência, a Alemanha. Ninguém sairá ileso.
Mas, a despeito do estilo do atual presidente, as peças em movimento mudarão o xadrez mundial das relações internacionais, e isso não é matéria para o curto prazo. Embora mudanças tarifárias possam ser temporárias, não se trata exclusivamente de medir os efeitos de curto e médio prazo, mas, sim, de entender os movimentos diplomáticos, as relações de confiança e parceria, bem como as oportunidades antes não vistas. Entretanto, no momento presente, o mundo segue assombrado.
O assombramento mundial carrega várias facetas: o crescimento das desigualdades sociais em economias desenvolvidas e estáveis; as migrações por inúmeros fatores, destacando-se os refúgios, as pressões climáticas, as guerras e a ausência de oportunidade econômica no local de origem; o crescimento da extrema-direita com bandeiras que flertam com regimes ditatoriais; a falta de perspectiva para os netos das gerações que estão se aposentando; e o crescimento dos super-ricos.
A conjugação da maior potência mundial criando riscos de pressões inflacionárias, contração econômica e instabilidade nas relações políticas soma-se (i) aos problemas fiscais de muitas economias do mundo – entre as quais se inclui o Brasil -, (ii) às incertezas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e (iii) ao crescimento da desigualdade de renda e à queda do bem-estar social global. Nesse cenário de elevada incerteza, o Brasil corre sério risco de mergulhar em grave crise.
Tornamo-nos dependentes de tecnologia externa, temos baixa produtividade na indústria e, na agricultura, alcançamos destaque às custas de distorcidas relações capital/trabalho. Do lado da educação, os últimos dados do Pisa – avaliação internacional que mede o desempenho dos estudantes do ensino básico em leitura, matemática e ciências – mostram nossa persistente incapacidade de gerar qualidade no ensino básico e, por conseguinte, ganhos de produtividade.
Olhando no curto prazo, os dados das exportações referentes aos primeiros sete meses (janeiro a julho) de 2025 indicam que, na agropecuária, 51% da nossa produção foi adquirida pela China e somente 3% pelos Estados Unidos. Os estados mais afetados são, em ordem decrescente, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás – curiosamente, grandes apoiadores do ex-presidente – e 71% da pauta concentra-se em cultivo de cereais, exceto arroz, oleaginosas e leguminosas.
Na pauta da indústria extrativa, 58% são de extração de petróleo bruto e 34% de minério de ferro, o que posiciona os estados do Rio de Janeiro, Pará e Minas Gerais, nessa ordem, como os maiores exportadores. A China, mais uma vez, responde por 50% do destino de nossa produção exportada; os Estados Unidos, por 7%; e Países Baixos e Espanha, por quase 6% cada.
Na pauta da indústria de transformação, os Estados Unidos lideram ao responder por 18% da produção exportada do Brasil, seguidos pela China, com 11% e Argentina, com 10%. Os estados exportadores mais relevantes são São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nessa ordem decrescente. Oito grupos de produtos respondem por 56% de toda exportação manufatureira, sendo que somente o processamento e conservação de carne responde por 16% do total.
O que o tarifaço do imperialista nos mostra? Que nossa vulnerabilidade é estrutural, não só por sermos eminentemente exportadores de produtos de baixo valor agregado unitário – salvo turbinas a vapor, caldeiras industriais, compressores, turborreatores, aeronaves Embraer e iates de luxo –, mas por não termos um planejamento econômico estratégico de longo prazo. A última vez que esboçamos algo mais estrutural foi no segundo governo Dilma, mas sabemos como tudo acabou.
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Não menos importante: na semana passada, 14 congressistas de extrema-direita exibiram sua capacidade de assalto à democracia na Casa para a qual foram eleitos democraticamente. No país onde o Pisa anda de lado e parte do Congresso Nacional quer anistia para o presidente que tentou dar um golpe de Estado, educação é, cada vez mais, uma pauta de salvação. Não aquela que a Constituição desenhou para sermos bem preparados e que estados e municípios insistem em desqualificá-la.
O “tarifaço” expôs nossas feridas estruturais, históricas, nosso atraso, nosso atual retrocesso nutrido por décadas de ausência (voluntária?) de educação de qualidade; nosso setor privado que, quando se sente ameaçado, recorre ao governo para socorrê-lo, mas que só joga em benefício próprio; nossa corrupção endêmica; nossa incapacidade de redução da desigualdade de renda – ao contrário, seguimos firmes na liderança – e, principalmente, nossa ausência de planejamento como Nação.
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Agora temos a China, que há três décadas se estrutura forte e continuamente como potência econômica e é hoje nosso maior parceiro comercial. Só estamos trocando nossa vulnerabilidade, nesse cenário de crise global, risco de desaceleração mundial, crescimento da extrema-direita e ausência de clareza sobre as relações internacionais. Corre-se o risco do “tarifaço” fazer cócegas ante tantos desafios estruturais que o mundo insiste em nos apresentar e que teimamos em negar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.