Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ECONOMÊS EM BOM PORTUGUÊS

A arte de dar dignidade à morte

Costa-Gavras traz, sim, uma visão romântica do morrer, mas traz a vida possível que a arte almeja que tenhamos — ainda que apenas em seu fim

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O nonagenário cineasta Costa-Gavras acaba de lançar o filme que, no Brasil, veio traduzido como “A Bela Vida”, mas cujo nome original — Le Dernier Souffle — seria o mais adequado: “O Último Suspiro”. Acredito que a proximidade da morte tenha levado Costa-Gavras a refletir sobre algo que a sociedade ocidental evita: a finitude da vida. Aliás, a sociedade ocidental não tem conseguido falar, ouvir, escutar nem ver nada relacionado à morte, ou ao limite da vida. Certos dirigentes que o digam.

No último dia 20, uma professora do ensino básico da capital mineira foi encontrada morta, nua e com sinais de violência, embaixo de um viaduto. Cinco dias após o crime, seu próprio filho, de 32 anos, confessou o assassinato. No mesmo dia em que o crime foi desvendado, o governador de Minas Gerais foi às redes sociais enaltecer o trabalho da polícia e afirmar que “lugar de criminoso é na cadeia”.

Algo de muito equivocado está acontecendo na sociedade e no poder público. Como uma autoridade enaltece o trabalho da polícia em uma situação que expõe toda a família da vítima? A exposição tornou-se o mote da pós-contemporaneidade e se estende a qualquer situação. E, quando nos deparamos com um olhar sensível sobre a morte, sentimos alguma estranheza — a ponto de considerá-lo romantizado. Que bom seria podermos falar abertamente sobre as experiências de mortes dignas.

No entanto, os tempos atuais não garantem nem a preservação da intimidade, nem da privacidade — a não ser quando se deseja ocultar a perversidade. É o caso dos gravíssimos episódios de pedofilia envolvendo pessoas poderosas — o mais recente é o de Jeffrey Epstein — ou das atrocidades das guerras. Nessa ambiguidade comportamental, reina a falta de sentido, na contramão do que escreve José Tolentino Mendonça em A Mística do Instante. Vale a leitura!

Tolentino Mendonça refere-se à escuta como “o sentido de verificação mais adequado para colher a complexidade do que uma vida é”. O Papa Francisco, em sua quarta e última Encíclica, intitulada Dilexit Nos — “Amou-nos”, em tradução livre —, traz o sentido do olhar de Jesus em diversas passagens da vida para nos mostrar que Ele nos vê e nos penetra. Os sentidos da escuta e do olhar desapareceram na vida conectada das redes sociais, em que, paradoxalmente, muito se vê e se escuta.

No entanto, é ilusório atribuir a decadência da humanidade ao século XXI. Quantas e quais empresas se beneficiaram dos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial? Dos Estados Unidos temos General Motors, Boeing, Lockheed, Northrop, DuPont, Standard Oil (ExxonMobil) e IBM; da Alemanha, IG Farben, Krupp, Volkswagen, Daimler-Benz (Mercedes-Benz) e Siemens; do Reino Unido, Rolls-Royce e Vickers-Armstrong; e, do Japão, Mitsubishi Heavy Industries, Toyota e Nissan (Nihon Sangyo).

A indústria farmacêutica se beneficia da dependência química dos opioides — uma das maiores tragédias reveladas pelo Nobel de Economia Angus Deaton, em seu livro Deaths of Despair — com a mesma força que empurra pesticidas e agrotóxicos para elevar a produtividade das lavouras. O caso brasileiro da soja, trazido pelo Instituto Escolhas, é um exemplo, conforme relatei na minha última coluna. Hoje, as big techs fazem vista grossa às fake news, ao avanço da extrema-direita e à propagação das deepfakes.

Embora o ambiente de “exposição contínua” das redes sociais não seja capaz de aguçar os sentidos, tem sido exímio em promover a compulsão e criar adictos. Na mesma linha, expandem-se as casas de apostas virtuais — as bets —, que utilizam redes sociais, influenciadores digitais e jogadores profissionais para atrair público. O filho que matou a própria mãe, no dia 20 de julho — e que foi o troféu do governador mineiro ao anunciar o trabalho da polícia — era viciado em bets.

O jornal Estado de S. Paulo publicou reportagem, no último domingo, sobre o efeito nefasto que as bets têm provocado na vida dos jovens. Segundo a matéria, uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 14% dos alunos matriculados em faculdades particulares atrasaram o pagamento de suas mensalidades ou trancaram seus cursos em decorrência da dependência provocada pelas bets. O país vai fechar os olhos para essa realidade?

Como podemos resgatar a dignidade sem nos reconectarmos com os sentidos, sem darmos um basta à frieza dos dirigentes e à falta de escrúpulos dos que lucram com as guerras? Quais empresas mais estão lucrando com a tragédia humanitária em Gaza, na Ucrânia e no Sudão? A pergunta que faço é: quanto do silêncio dos dirigentes está se convertendo em lucro financeiro diante das mortes por inanição em Gaza, da separação dos filhos de suas mães ucranianas e do genocídio no Sudão?

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Santo Inácio de Loyola, em seus Exercícios Espirituais, afirma: “não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas sim sentir e saborear internamente todas as coisas.” Costa-Gavras traz, sim, uma visão romântica do morrer, mas traz a vida possível que a arte almeja que tenhamos — ainda que apenas em seu fim. É o oposto do que demonstrou o governador mineiro ao levantar o troféu da falida relação humanitária entre Estado e sociedade.

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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