Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ELEONORA CRUZ SANTOS

O lado nada pop do agronegócio brasileiro: o caso da soja

Melhor mudar logo essa toada antes que, no slogan, o "pop" seja substituído por "réquiem"

Publicidade

Mais lidas

 

Em 30 de junho último, o Presidente Lula assinou o Decreto 12.538 que institui o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos - Pronara. A assinatura vai na contramão do Projeto de Lei 6.299/2002 – apelidado “PL do Veneno”, que aguarda sanção no Senado. O “PL do Veneno” propõe alterações profundamente danosas na legislação brasileira sobre o uso de agrotóxicos e flexibiliza regras gerais, o que pode aumentar os riscos à saúde e ao meio ambiente.

Sob a alegação de agilidade, modernização e ganhos de produtividade, o “PL do Veneno” é uma narrativa enganosa da eficiência do agronegócio brasileiro. O aumento da produção de grãos, apresentado como crescimento de safra, é condição necessária, mas não suficiente, para o aumento de produtividade. A soja, produto brasileiro líder no mercado mundial, é o melhor exemplo dessa falácia, conforme aponta o estudo recém-lançado pelo Instituto Escolhas.

“Brasil como líder mundial em produção de soja: até quando e a que custo?” é o título do estudo do Instituto Escolhas que, em 2025, completa 10 anos de (i) produção de trabalhos técnicos sobre desenvolvimento sustentável e (ii) busca pela sensibilização de governos e outros atores sociais no combate a práticas danosas ao meio ambiente. O estudo sobre a soja analisa uma série história de 30 anos – de 1993 a 2023.

Dentre as mais importantes bandeiras do agronegócio brasileiro, destacam-se os avanços tecnológicos e os ganhos de produtividade. Os avanços tecnológicos têm ocorrido em praticamente todos os setores, especialmente no agronegócio, e promovido mudanças expressivas nas relações capital/trabalho e nas demandas laborais. Já os ganhos de produtividade, seguem a clássica tendência brasileira de ficar muito abaixo da média global. A produção de soja não fica fora desse padrão.

Antes de apresentar números, é importante esclarecer o que se entende por produtividade na produção de grãos: trata-se do volume produzido dividido pela área utilizada (hectare, por exemplo). Portanto, se o aumento da produção se deu na mesma área de terra, há indícios de ganhos de produtividade mais robustos; do contrário, não. É o que vem ocorrendo há anos.

Entre 1993 e 2023, a área cultivada de soja, em hectares, cresceu, em média, 5% ao ano, enquanto a produtividade, medida pelo volume produzido em sacas – cada saca equivale a 60 quilos (Kg) de soja – por hectare, teve aumento médio anual de apenas 2% ao ano, nesses 30 anos. Em outras palavras, a expansão da área de cultivo foi proporcionalmente bem maior que o aumento do volume produzido. Esses dados acendem um alerta sobre a qualidade dessa expansão.

Comparativamente aos cinco principais produtores mundiais de soja, como tem sido o desempenho do Brasil na qualidade de sua produção de soja? Segundo o Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os cinco maiores produtores de soja do mundo, em ordem decrescente, são: Brasil, Estados Unidos, Argentina, China e Índia. Em todos indicadores que medem produtividade e uso de agrotóxicos, o Brasil apresenta os piores indicadores.

Embora tenha superado os Estados Unidos recentemente em volume produzido, essa produção tem ocorrido às custas de maior uso de fertilizantes, expansão de terras cultivadas, aumento do uso de agrotóxicos e queda da produtividade. No comparativo entre os cinco países líderes, em 1993, o Brasil produzia 25 sacas de soja com 1 Kg de agrotóxico; em 2023, o País produziu 4 sacas com 1 Kg de agrotóxico. Em 1993, o Brasil tinha o terceiro melhor desempenho entre os 5 países; desde 2011, ocupa a pior posição.

Quanto ao uso de fertilizantes (potássio e fósforo), o Brasil só perde para a China na relação entre sacas produzidas e uso desses insumos, sendo a Argentina líder em eficiência – melhor relação entre produção e consumo de insumos (agrotóxicos e fertilizantes). Na contramão da qualidade, no Brasil, cerca de 93% da produção se dá com o uso de sementes transgênicas – outra liderança mundial que o Instituto Escolhas aponta como mais um alerta preocupante.

Para reforçar o estudo técnico do Instituto Escolhas, a FAO e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) já destacaram, em seus relatórios, os riscos da liderança brasileira no consumo de agrotóxicos mundial. Do lado do trabalho, a OIT estima cerca de 300 mil mortes anuais por envenenamento em lavouras ao redor do mundo. Além das mortes, há também riscos à saúde coletiva, ao solo e à água.

É preciso cautela com a profusão de notícias sobre a expansão do agronegócio. Defendo e aplaudo o crescimento qualitativo da produção, mas não do volume de produção a qualquer preço. O que os dados do Instituto Escolhas fazem é desconstruir a narrativa do “agro pop” mostrando que, a longo prazo, a soja tem sido produzida com baixa produtividade e alto elevado consumo de agrotóxicos e fertilizantes.

Desconstruir narrativas é um desafio cada vez maior. Em 2016, no programa da maior rede de TV aberta do País, cunhou-se o termo “o agro é pop” para destacar a conexão entre atividade agropecuária e outros setores da economia, na construção da cadeia de valor do agronegócio. O slogan foi adotado por entidades do setor e se espalhou para a cultura (tema de músicas sertanejas) e a política (símbolo de defesa do setor no Congresso e nas Assembleias Legislativas).

É notória a força que o agronegócio tem ganho ao longo dos anos, não somente por seus indicadores de produção – não necessariamente de produtividade -, mas também pelo reconhecido espaço conquistado no PIB nacional. Daí, faz-se necessário a divulgação de informações técnicas como as produzidas pelo Instituto Escolhas, e outros sem fins lucrativos, cujo objetivo é o bem-estar social, a sustentabilidade e a viabilidade econômico-social.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

As tarifas impostas pelo presidente norte-americano atingem de sola o setor agropecuário brasileiro, mas poupam a soja, cujo principal destino é a China – responsável por cerca de 73% da exportação total do País. O agronegócio da soja é concentrado, com baixa produtividade e altamente vulnerável a sanções. O Instituto Escolhas evidencia que o caminho precisa ser revisto. Melhor mudar logo essa toada antes que, no slogan, o “pop” seja substituído por “réquiem”.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

agronegocio eua lula tarifaco

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay