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Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ECONOMÊS EM BOM PORTUGUÊS

Vitória é minha reparação àquelas que transbordam coragem e vida interior

Vitória é expressão da força necessária para lidar com a vida, naufragando em um submarino cujas máquinas são operadas por um sistema corrupto e displicente

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Na minha última coluna, "Às mulheres livres que ainda estão aqui", uma leitora e amiga muito querida comentou ter sentido falta de uma menção às mulheres judias entre aquelas que listei por viverem grandes sofrimentos. Acolho essa fala e hoje faço minha reparação, partindo do filme Vitória, que estreou nos cinemas na semana passada. Reparo a ausência de judias e de outras mulheres que carregam vida interior rica e profunda, e tornam-se luz e inspiração em tempos de sombras e de retrocessos de direitos.

Em meio às sinalizações autoritárias e conservadoras do atual presidente norte-americano, uma que pareceu-me ter passado despercebida foi a “campanha pelo incentivo à natalidade”. A ideia subjacente é estimular as mulheres americanas a terem mais filhos, uma “sutileza” na contramão e na regressão dos direitos de liberdade, de expansão profissional e de independência. À medida que o mundo tem se tornado mais conservador, fortalecem-se as retaliações à expansão feminina.

Dentre os prêmios Nobel na ciência, os Estados Unidos são o país com maior incidência de mulheres laureadas. Barbara McClintock, geneticista; Gertrude Belle Elion, bioquímica; Elizabeth Blackburn, médica e pesquisadora australiana-americana. Ainda na medicina e oriundas de outras partes do mundo, temos Rita Levi-Montalcini, neurologista italiana; Tu Youyou, farmacóloga e educadora chinesa; e Lise Meitner, física austríaca. São heroínas em meio à retaliação.

Mas a inserção das mulheres nas ciências ainda é muito tímida, seja pela barreira de acesso e de reconhecimento, seja pela dificuldade de conciliar suas duplas ou triplas jornadas de trabalho em um mundo em que persiste a discriminação salarial e ocupacional. Entretanto, a vida carrega a magia da sobrevivência, emana o feminino enraizado na mãe-natureza e jorra águas de esperança nos desertos dos sofrimentos e das injustiças humanas. E as mulheres são luzes!

São luzes em meio à falta de esperança usurpada pelos prevalentes poderes masculinos; são luzes na arte de saberem se unir para se protegerem; são luzes ao carregarem, na maternidade, ou no instinto feminino, a capacidade de acolher. O acolhimento é do feminino. Assim o fez, por exemplo, Gisella Perl, médica judia romena que usou sua experiência para promover abortos nas mulheres judias que estavam em Auschwitz e assim evitar que elas fossem para as câmaras de gás.

Quantas mulheres judias sobreviventes do Holocausto tornaram-se ativistas dos direitos humanos? Dentre as mais famosas, podemos destacar Vera Weislitz, Hedy Epstein, Simone Veil, Eva Kor, Lily Ebert, sem contar personalidades como Edith Eger, conhecida pelo “best-seller A bailarina de Auschwitz” e a criança-adolescente Anne Frank, por seu comovente diário.

Quantas mulheres judias foram vítimas da violência do ataque do Hamas em outubro de 2023? Ainda assim, quantas judias defendem o fim dos ataques em Gaza e a pacificação entre os povos? Quantas iranianas, judias, africanas, palestinas, ucranianas – para me concentrar nos sofrimentos mais recentes – têm tido suas vozes abafadas? Como nos iludir e acreditar que temos voz, considerando que até aquelas que têm lutado pela pacificação são retaliadas pelos homens donos do poder?

Iludiu-se Vitória, que, em sua ingênua credulidade no sistema, tentou fazer queixas com provas ao batalhão da polícia do seu bairro, na esperança de que sua denúncia deflagraria o fim do tráfico de drogas e da violência na região onde morava. Vitória é autenticidade, força interior, coragem, liberdade de pensar e de agir, afeto, generosidade, ausência de preconceito, senso de realidade e de retidão. Vitória tornou-se Vitória quando percebeu que havia perdido para a violência.

Sim, perdemos sempre para a violência que nutre as redes de corrupção e desestabiliza a capacidade de ascensão de uma sociedade. Perdemos as vitórias conquistadas dignamente no pão ganho de cada dia quando tantos outros estão sendo alijados pelo sistema corrupto que destrói a beleza natural da vida e da sociedade. Vitória revela o infortúnio e a degradação social, retratando a contradição dos tempos enquanto se reveste de credulidade e de coragem.

Revestir-se de coragem é a maior armadura que Vitórias, Veras, Ediths, Orins e tantas outras mulheres precisam para enfrentar as injustiças e iniquidades. Preenchidas de vida interior, essas mulheres nos inspiram. Ricas de coragem e determinação, nos movem. Compõem os acordes de nossas partituras, ora afinados, ora desafinados em busca de equilíbrio em uma vida pautada pela ausência de equanimidade.
A contrabaixista Orin O’Brien revestiu-se de coragem e tornou-se a primeira mulher a fazer parte da Filarmônica de Nova York, à época composta por 104 membros. Era preconceituosamente reconhecida por seus colegas e até mesmo pelo maestro Zubin Mehta; só foi admirada pelo seu estimado regente Leonard Bernstein. Passou tão despercebida quanto o Oscar 2025 de Melhor Curta que a premiou – “A única mulher da orquestra” conta, resumidamente, a história de Orin O’Brien.

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Orin afirmou que “tocar contrabaixo traz a sensação de estarmos na barriga de um submarino, cercados por máquinas, com tudo acontecendo ao mesmo tempo e milhões de notas caindo ao nosso redor e ainda assim temos que manter nossa estabilidade para, ao nos olharmos ao sairmos do palco, dizer: foi por isso que me tornei músico, por essa experiência “.


Vitória é expressão da força necessária para lidar com a vida, naufragando em um submarino cujas máquinas são operadas por um sistema corrupto e displicente, onde milhares de pessoas são violentadas e, ainda assim, precisam se manter firmes para que, ao final, possam dizer que “são exemplos de vida como Vitória que nos permitem continuar acreditando que a vida se constrói e se sustenta no nosso interior”.
O recém-lançado filme nacional “Vitória” não me parece candidato ao Oscar, mas é o maior candidato à reflexão sobre o papel da mulher brasileira que não quer ceder às injustiças, à violência e à corrupção que impregnam o sistema político e econômico e impactam toda a sociedade. É a mulher que continua tocando acordes de integridade.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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