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Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ECONOMÊS EM BOM PORTUGUÊS

Às mulheres livres que ainda estão aqui!

É necessário que fique claro que não se cerceia nem se forja a liberdade interior. Ela é inacessível ao outro

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Ser uma mulher livre vai muito além de ser “dona do seu nariz” ou “pagar suas próprias contas”. Aliás, pagar suas próprias contas está longe de ser indicativo de liberdade; pode ser, no máximo, um sinal de liberdade financeira. Ser livre é transitar sem amarras, sem domínio de terceiros, sem julgamentos; é fluir, apesar das retenções impostas pelos caminhos inesperados, pelos fluxos retidos por inúmeras formas de opressão e de violências impostas.



A vitória de “Ainda estou aqui” como melhor filme estrangeiro no Oscar 2025 reforçou a contradição cultural brasileira, mais uma vez revelada durante toda a campanha do filme, por sua indicação nos diversos festivais e premiações internacionais de cinema. Desde que foi lançado, e especialmente após o prêmio Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, “Ainda estou aqui” tem mostrado o quanto a história brasileira busca esvaziar a potência das mulheres.


Não há como dissociar a cultura de um país de sua história. A cultura se constrói entremeada ao desenvolvimento político, econômico e social de um país. A cultura desnuda o país, revela seus aspectos mais emblemáticos, contraditórios, poéticos, alegóricos etc. Por meio da cultura nos identificamos, tanto por motivos que nos causam orgulho, quanto por aqueles que deveriam nos envergonhar.

 

 O Brasil é historicamente marcado por fortes contrastes. Desde sua colonização, vive uma usurpação histórica que reforça e perpetua as mais violentas formas de desigualdade. E usurpa estruturalmente o saber social – o vetor capaz de reduzir as virulências que o tornam desigual e insoluvelmente injusto. Nascer mulher já é, por si só, um grande desafio. Nascer mulher, ser livre e reconhecida no Brasil e na maioria dos países, é como remar em um bote contra ondas tsunâmicas!


No entanto, as mulheres resistem! Não vou me delongar sobre o que a mudança abrupta na vida de Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres, significou para a nossa história. Essa mulher que, de dona de casa tornou-se “viúva” – o atestado de óbito do marido demorou 37 anos para ser emitido –, ao se ver sozinha para criar cinco filhos, decidiu voltar para sua terra natal, São Paulo, formar-se em Direito e tornar-se ativista dos direitos humanos e dos povos indígenas.

 


Quantas mulheres reconhecem suas lutas em Eunice? Quantas mulheres são capazes de ter consciência clara e firme de suas forças interiores, de seus instintos de sobrevivência e de sua busca por justiça, verdade e liberdade? Quantas Eunices compõem o anonimato das mulheres que são responsáveis por sustentar suas famílias, enfrentar duplas ou triplas jornadas de trabalho e ainda ter de se calar diante de assédios e abusos, sob pena de comprometer o seu “pão de cada dia”?


Quantas mulheres viveram ou ainda vivem a dor da perda de seus filhos desaparecidos ou torturados e, posteriormente, assassinados barbaramente, na era da ditadura militar que predominou na América Latina e que se manifestou de forma mais violenta no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai? Quantas mulheres presas por esses mesmos regimes foram submetidas a dilacerantes torturas, que trouxeram sequelas permanentes aos seus corpos?


Quantas mulheres atualmente sofrem com os regimes ditatoriais de vários países africanos e orientais? Quantas mulheres já foram condenadas à pena de morte ou submetidas às torturas brancas no regime desumano do aiatolá Ali Khamenei? Quantas mulheres ucranianas tiveram seus filhos sequestrados pelo exército russo na atual guerra? Quantas mulheres palestinas vivem o sofrimento do sequestro e da violenta prisão de mais de 10 mil de suas crianças por Israel, nos últimos 20 anos?


Em 2024, o mundo assistiu ao escândalo de abuso sexual sofrido pela francesa Gisèle Pelicot, promovido por seu próprio marido, por mais de 10 anos. Ele a dopava e permitia que outros homens a estuprassem. Gisèle Pelicot tornou público seu caso para que outras mulheres se sentissem encorajadas a não permitir abusos e violências dessa e de outras formas indeléveis de agressão. Dos cerca de 70 homens identificados pelos estupros, 50 foram condenados, a começar por seu marido.

 


Gisèle Pelicot e Eunice Paiva, assim como milhares de mulheres que nos servem de inspiração, mostraram suas caras, sua coragem, sua resiliência e sua força, e não cederam ao processo deliberado de destruição imposto às suas vidas e às de seus filhos. A história de ambas nada tem em comum, exceto o simples e fundamental fato de serem mulheres que, diante das inefáveis violências promovidas por homens, não sucumbiram às amarras da dor e do sofrimento. Reergueram-se!

 


Lidar com as armadilhas do sofrimento deliberado, da violência e do desrespeito é, e sempre será, muito desafiador para qualquer ser humano. Independentemente do nível de desenvolvimento econômico, seja de países ditos desenvolvidos – Gisèle Pelicot é francesa – ou não tão desenvolvidos assim – Eunice Paiva, brasileira – vivemos em sociedades ditadas por homens. E o caminho da busca pela igualdade é longo e de difícil alcance.


O que o mundo continua vivendo, independentemente da condição socioeconômica e histórica que pesa sobre suas distintas formações culturais, é a continuidade do cerceamento da mulher e de seus direitos básicos, de seu livre-arbítrio e da sua liberdade. Apesar disso, é necessário que fique claro que não se cerceia nem se forja a liberdade interior. Ela é inacessível ao outro.

 

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A liberdade só acontece dentro, no interior, na alma. É um existir por si e para si; é um preencher-se e um bastar-se que não encontram eco nas relações de poder prevalentes entre ou intergêneros. É o alcance do êxtase por se sentir presente, por estar aqui, ou por ainda estar aqui. Para a mulher, a liberdade é tornar-se senhora dos seus passos interiores e de suas escolhas exteriores, apesar de toda sorte de impedimentos e percalços.


Na simbólica data de hoje, e embevecida pela vitória do Oscar de melhor filme estrangeiro, pelo Globo de Ouro de melhor atriz de drama para Fernanda Torres e pela maravilhosa campanha de divulgação do filme “Ainda estou aqui”, saúdo todas as mulheres que ainda estão aqui com seus interiores livres, transbordantes de força, coragem, resiliência, ternura e amor e que carregam sorriso no rosto e na alma. Ainda estamos aqui, e vamos sorrir!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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