
As incertezas econômicas convergem para a ascensão da extrema direita
Nessa encruzilhada em que os governos passaram de financiadores a financiados pelos super-ricos, o mundo vive em um ‘looping’
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Desde sua posse, o atual presidente dos Estados Unidos, tem “plantado o terror” nas relações internacionais. O caos político tem mostrado uma única certeza: na falta de garantias de direitos sociais, as sociedades apoiam, cada vez mais, partidos de extrema direita e políticas do tipo “farinha pouca, meu angu primeiro”. A Alemanha reforçou o coro da guinada à direita e da política de salvamento do império em queda, como fizeram recentemente os Estados Unidos e a França.
É assim, e sempre será, a reação dos impérios quando sentem a perda de seus poderes. Perdem a elegância, mostram suas garras, deixam cair suas máscaras de bem-estar comum e voltam-se para a construção e/ou recuperação das riquezas de suas nações. Tornam-se conservadores, liberais e pouco afeitos a políticas que não os privilegiem, em detrimento dos mais dependentes e economicamente menos fortes. Por fim, fragilizam aqueles que buscam oportunidades em suas terras.
O roteiro da “nova direita” e da extrema direita já é conhecido, mas está cada vez mais próximo. Há muitas pautas ideológicas em comum e uma sinalização clara de que, em boa parte do Ocidente, cresce a descrença nas ideologias sociais proferidas pelos partidos de centro e de esquerda, que foram maioria nas últimas décadas. Foram nesses anos, e não por acaso, que se fortaleceram os regimes democráticos, sobretudo na América Latina, despontados com o fim das ditaduras militares.
O resultado das eleições na Alemanha, no último domingo (23/2), é mais uma evidência da descrença da população, que não viu suas condições de vida melhorarem ou se sustentarem em patamares mais elevados nas últimas décadas de políticas públicas ditadas por governos de centro e de esquerda que, embora com bandeiras de bem-estar social, permitiram o crescimento das disparidades sociais e a concentração de riqueza nas mãos de poucos.
Os resultados da eleição do último domingo não apresentaram diferenças expressivas entre o voto de homens e de mulheres, mas dão pistas que reforçam as experiências históricas da sociedade: 31% das pessoas com melhores condições financeiras votaram na coalizão de direita dos partidos conservadores (CDU e CSU), representados pelo novo chanceler alemão Friedrich Merz, enquanto 38% das pessoas em situação financeira ruim votaram no partido de extrema direita AfD.
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Por faixa etária, os resultados dialogam com a descrença dos mais velhos nos partidos de esquerda: 43% das pessoas de 70 anos ou mais votaram na coalizão CDU/CSU, sendo somente 24% no Partido Social-Democrata (SPD); 10% desse grupo etário votaram no partido de ultradireita AfD, ante 20% dos jovens entre 18 e 24 anos. O resultado expressivo dos jovens no AfD coaduna com a pesquisa que apresentei na última coluna (11/2), sobre a ignorância da população jovem em relação ao Holocausto.
A incoerência também tem andado de mãos dadas com a ignorância, esta última no stricto sensu, e parece ser um privilégio das democracias enfraquecidas. Embora 20% dos jovens tenham votado no partido neonazista AfD, 25% votaram no Partido de Esquerda, que foi impulsionado, no fim de sua campanha, por vídeos na rede social TikTok — a rede social de pessoas com perfil etário mais jovem. Vale lembrar que o temido efeito Elon Musk, com sua rede X, não teve o sucesso tão esperado.
A incoerência também pôde ser vista na eleição do presidente Trump, que recebeu expressiva votação de imigrantes, apesar de sua forte campanha pela deportação. O fato é que, tanto na Alemanha, como em parte da Europa e nos Estados Unidos, há poucos meses, os sinais de que algo não caminha bem em suas democracias têm trazido incertezas aos ambientes políticos e de negócios, em um ano cujas projeções de taxas de crescimento de suas economias não são animadoras.
Trump segue sua política do caos internacional, sem sinais claros de quais são suas estratégias e reais intenções. Orville Schell, diretor do Centro de Relações EUA-China da Asia Society, publicou, na semana passada, um artigo em que compara a revolução cultural trumpista com aquela imposta pelo maior líder chinês Mao Tse-Tung (ou Mao Zedong). Vale lembrar que a Revolução Cultural chinesa custou a vida de milhões de chineses e a destruição de boa parte de seu acervo cultural.
Antes da Revolução Cultural, Mao Tse-Tung lançou algo que soa familiar aos norte-americanos nos tempos atuais: o programa “O Grande Salto para Frente”, que buscava transformar a China de rural em industrial, entre os anos de 1958 e 1962. O resultado foi a “Grande Fome Chinesa”, o caos econômico e o enfraquecimento político do líder chinês. Similarmente, a Revolução Trumpista traz temores em meio aos seus desacertos, truculências e nebulosas transações.
O economista Thomas Piketty relativiza o temor com a Revolução Trumpista ao afirmar, em ensaio recém-publicado, que o capitalismo norte-americano, nas mãos de Trump, “gosta de exibir sua força, mas, na verdade, é frágil e desesperado”. Piketty desconstrói parte da narrativa sobre a bem-sucedida política norte-americana ao mostrar que, desde os idos de 1990, os países mais desenvolvidos da Europa mantêm níveis de produtividade semelhantes aos dos americanos.
Piketty reforça o argumento que desenvolvo logo no início desta coluna, de que, em tempos de crise, a força do capitalismo nacional volta-se para exaltar a vontade de poder e a identidade nacional. Não sejamos ingênuos: sua fraqueza esbarra em conflitos de poder e faz com que a sociedade, iludida pela ignorância e pela busca por salvaguardas, acredite em bandeiras que, na prática, só reforçam o status quo das desigualdades e dos abismos sociais.
Entretanto, podemos argumentar que a sociedade também se abasteceu de ignorância e credulidade ao apostar tantas décadas nos regimes democráticos mais de centro-esquerda e, mesmo assim, viu suas condições de vida se deteriorarem. O jovem expoente da “economia das redes sociais”, o economista inglês Gary Stevenson, em um de seus vídeos-aula, reforça que tanto a esquerda quanto a direita vão cair, pois ambas têm trabalhado com os mesmos pressupostos.
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Gary Stevenson aponta para o mesmo argumento defendido há anos por Thomas Piketty: a necessidade de taxação dos super-ricos. Nessa encruzilhada em que os governos passaram de financiadores a financiados pelos super-ricos, o mundo vive em um “looping”, e a ciranda econômica expulsa os mais vulneráveis, faz uma verdadeira lavagem cerebral na história da (re)construção das sociedades e cria espaço na cabeça dos eleitores para elegerem o que deveria ser inelegível.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.