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Eleonora Cruz Santos
Eleonora Cruz Santos
Economista, com mestrado em Demografia, doutorado em Administração e pós-doutorado em Economia, trabalha como consultora para organismos internacionais, atuando nas áreas sociais, de mercado de trabalho, migração e desenvolvimento humano; também leciona p
ELEONORA CRUZ SANTOS

Em 2025, a ausência da moral e ética destrói as relações internacionais

Nesse contexto, o mundo é capaz de reviver genocídios sem se sensibilizar, repetir holocaustos e promover crescentes desigualdades

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Certa vez, em entrevista sobre seu livro “Do moral matters?” (“A moral importa? em tradução livre), lançado em 2020, o cientista político Joseph S Nye afirmou ser “tautológico dizer que todos os estados tentam agir em seu interesse nacional. A questão importante é como os líderes escolhem definir e perseguir seus interesses nacionais em diferentes circunstâncias.” E na avaliação do desempenho de suas decisões politicas e econômicas, pesa, no final, o resultado, e não os aspectos morais.

 

 

Nesse sentido, a moral parece, muitas vezes, irrelevante para julgar uma política externa, prevalecendo, assim, o julgamento de sua funcionalidade. Na esteira do pragmatismo dos resultados econômicos e dos ganhos políticos, a moral e a ética tornam-se, cada vez mais, inócuas. No entanto, para Joseph S Nye, “um bom raciocínio moral e a conseguinte avaliação da politica a ela subjacente devem incluir intenções, consequências e meios.” Assim, o raciocínio moral julga a ética política.

 

De forma altamente simplista, a ética é o campo da filosofia clássica voltado para a natureza do bem e do mal, da virtude, do dever, do direito e refere-se a tudo que se relaciona à conduta humana, à busca pela felicidade, pelo bem e pelo virtuosismo.

 

Sua discussão original remonta ao “pai da filosofia ocidental”, Sócrates, para quem a virtude consistia em agir de forma genuinamente boa, com base no conhecimento. Nesse sentido, o mal surgia como resultado do desconhecimento, e não da maldade voluntária. Para Sócrates, o governante ideal deveria usar a sabedoria e a virtude para alcançar o bem comum, e não seus interesses pessoais.

 

Platão, um dos grandes disseminadores das ideias socráticas, constrói o conceito da “forma do bem”, que aqui sintetizo grosseiramente como “aquela que ilumina as demais formas e torna possível o conhecimento e a compreensão do mundo ‘inteligível’”.

 

 

A ética, para Platão, envolve (i) a busca pela compreensão e pela realização de um padrão absoluto de moralidade e virtude; e (ii) a ação de maneira justa e virtuosa. Em seu livro “A República”, o filósofo argumenta que o governante deveria ser alguém capaz de compreender a “forma do bem” – aquela que está acima de todas as formas – para que, assim, governasse com justiça e sabedoria.

 

Já para Aristóteles, a virtude era considerada um meio-termo entre o excesso (aqui podemos ilustrar como o abuso de poder) e a deficiência (ausência de poder) e deveria resultar da prática de ações virtuosas. Através do caminho do meio, Aristóteles defendia que a política deveria buscar a forma justa, cabendo aos governantes a prática ética do bem comum, e não da busca por seus interesses pessoais.

 

Remetendo ao século XX, o melhor exemplo de um político desprovido de princípios filosóficos clássicos de ética e de moral seria Adolf Hitler. Entretanto, é estarrecedora a pesquisa realizada pela “Global Strategy Group”, em sete países europeus (Reino Unido, França, Áustria, Alemanha, Polônia, Hungria e Romênia) e nos Estados Unidos, a pedido da Conferência de Reivindicações Judaicas, que revela o desconhecimento dos jovens sobre o que foi o Holocausto.

 

A pesquisa foi divulgada no dia 27 de janeiro do ano corrente, data em que se celebraram os 80 anos do fim do maior campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial – Auschwitz. Metade dos alemães desconhecia que 6 milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto, assim como 52% dos poloneses, 64% dos romenos e franceses e 66% dos austríacos. Na faixa etária mais jovem, entre 18 e 29 anos, esse índice foi de 40% na Alemanha, chegando a 70% na Romênia.

 

 

Voltando ao princípio socrático do conhecimento para que haja uma atitude (ação) de forma correta e boa, não é de se estranhar o crescimento da extrema-direita na Alemanha e na maioria dos demais países em que a pesquisa foi realizada. Converge com a aceitação, ou falta de reação e/ou defesa por parte da população, e até mesmo de grupos antissemitas, ao gesto de Elon Musk – que sugeriu uma saudação nos moldes nazistas – na posse do atual presidente dos Estados Unidos (EUA).

 

Hannah Arendt, em “A banalidade do mal”, discorria sobre os efeitos da falta de capacidade de reflexão dos indivíduos e, por conseguinte, do seu impacto sobre a construção do pensamento moral. A ausência do conhecimento definido por Sócrates leva à ausência de capacidade de construir um pensamento crítico, em Arendt, tornando-se possível a banalização do mal devido à incapacidade de julgamento entre o que é moral e eticamente certo ou errado.

 

Nesse contexto crescem os regimes autoritários, retrocedem as liberdades de pensamento e as estruturas democráticas, e expande-se a ausência de pensamento crítico e a banalização das atrocidades. Nesse contexto, o mundo é capaz de reviver genocídios sem se sensibilizar, repetir holocaustos e promover crescentes desigualdades.

 

Na expansão do autoritarismo político, o atual presidente dos EUA foi capaz de propor, publicamente, um plano de limpeza étnica e tomada do território de Gaza do povo palestino, infringindo acordos internacionais, além de violar a ética e a moral. As reações internacionais vieram de várias partes do mundo, afinal, Gaza é tecnicamente parte do Mandato Palestino, muito embora, desde 1967, venha sendo ilegalmente ocupada por Israel.

 

 

Em economia, ao menos duas teorias carregam, intrinsecamente, aspectos morais e éticos: a teoria dos contratos e a teoria dos jogos. Na teoria dos contratos, a moral deveria ser uma “trava implícita” para impedir que a assimetria de informações e o oportunismo propiciassem comportamentos oportunistas. Daí a necessidade de estruturas de governança e mecanismos de punição, dentre outros, atuando no sentido de mitigar o oportunismo e a assimetria.

 

Na teoria dos jogos, o dilema do prisioneiro é um exemplo de como a tomada de decisão pode prejudicar ou beneficiar individual ou coletivamente. Trata-se de uma situação em que dois criminosos são presos e interrogados, separadamente, e cujas penas dependem da atitude individual de cada um, afetando a do outro. No jogo assimétrico de informação, em pleno século XXI, o empresário mais rico do mundo alia-se ao governante mais poderoso e adotam práticas que banem o “fair play”.

 

Elon Musk, dono da poderosa rede social X, chegou neste governo com mais influência que no governo anterior de Trump e começou a exercer seu cargo como se o governo fosse uma empresa privada em busca de lucro. Musk transgride princípios éticos do papel do Estado como garantidor do bem-estar e o utiliza como sinal claro de assimetria de informação. Ao ter acesso aos dados mais sensíveis do governo dos EUA, ele fere o princípio moral básico dos contratos e da governança.

 

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O ano de 2025 iniciou com a progressão da fragilidade ética e moral nos governos, em várias partes do mundo. A fragilidade das relações sociais, dominadas por violências e separatismos construídos por “algoritmos sociais” que estimulam o desconhecimento e a maldade voluntária, reforça a necessidade de voltarmos meio século antes de Cristo para buscar a salvação das relações humanas e humanitárias. Oxalá nos proteja!

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