Educando Seu Bolso
Educando Seu Bolso
Dicas de especialistas e informações sobre finanças pessoais, investimentos e economia para ajudar você a gerir melhor seu dinheiro.

Cartão de crédito não é reserva de emergência, mas todo mundo acha que é.

Muita gente enxerga o limite do cartão como renda extra, mas essa falsa sensação de segurança pode esconder um problema: a conta chega depois, e com juros.

Publicidade

Mais lidas

Por Alexia Diniz

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Essa semana eu tive um atendimento de consultoria que me marcou. Não vou contar quem é, nem os valores exatos, porque sigilo com cliente é sagrado pra mim, mas o padrão que apareceu naquela conversa é tão comum que resolvi trazer pra cá, porque tenho certeza que muita gente vai se ver nele.

A pessoa começou a reunião falando de um assunto e, dez minutos depois, a gente já estava reconstruindo o mês inteiro dela no papel: pet shop, assinatura de streaming, seguro do carro, uma mensalidade de academia, um curso da filha... tudo, TUDO no cartão. Não porque ela quisesse. Porque, na hora em que cada uma dessas contas venceu, não tinha dinheiro na conta corrente. E o cartão estava ali, disponível, resolvendo o problema na hora.

O problema é que ele não resolve nada. Ele só troca a data.

O cartão não paga a conta, ele te empresta, mas no mês que vem a conta chega

Isso parece óbvio escrito assim, mas na prática ninguém sente dessa forma no momento em que passa o cartão. A sensação é de alívio: "ufa, resolvido". Só que resolvido é a palavra errada. O que aconteceu foi que a despesa saiu da sua frente e foi parar lá na fatura do mês que vem, só que na fatura do mês que vem já vão ter outras coisas também. E aí a fatura fica maior. E se não der pra pagar ela inteira, uma parte rola pro mês seguinte, com juros (altos).

É basicamente isso que forma o que eu chamo de bola de neve: cada mês que passa, ao invés de você ter uma "sobra" para respirar, você tem uma fatura mais gorda esperando por você. E o pior é que, como o gasto nunca aparece "de uma vez", a pessoa não enxerga o tamanho do problema até ele já estar fora de controle. Ninguém decide, num dia só, se endividar com uma fatura de 5 mil reais. A decisão é sempre pequena: "ah, coloca no cartão que resolve agora e eu penso depois".

No caso que eu acompanhei, quando a gente somou tudo o que estava no cartão, as coisas fixas mensais mais os parcelamentos em aberto, o valor surpreendeu a própria pessoa. Ela não fazia ideia de como tinha chegado àquele número, ou até mesmo o que estava dentro daquela fatura que ultrapassava o valor do seu salário.

Dá para viver o mês no cartão de crédito? 

O que mais me marcou nesse atendimento foi que, em nenhum momento, eu senti que estava falando com alguém irresponsável. Pelo contrário. Ela pagava tudo em dia. Se preocupava em não deixar nada atrasar. Anotava, se cobrava, se organizava do jeito que dava. 

O problema não era o descuido. Era que a conta corrente dela nunca tinha folga nenhuma. Vivia literalmente esperando o próximo salário chegar pra sobreviver até o seguinte.

E é aí que mora a armadilha. Quando não sobra nada, qualquer coisa vira emergência. Uma mensalidade que venceu numa data ruim, um imprevisto pequeno, uma conta que ela já sabia que ia chegar mas não tinha como bancar naquele momento. 

E na hora da emergência, a gente usa o que tem à mão. Se o que tem à mão é limite de cartão, é isso que entra. Não porque seja a melhor escolha. Porque é a única que parece possível ali, naquele instante.

"Tudo vai dar certo no final": o que é o viés de otimismo? 

Enquanto a gente ia somando as coisas juntas, outro detalhe apareceu na conversa: ela já estava com uma viagem internacional marcada, mesmo com o cartão nessa situação. E não porque ela não soubesse que estava apertada. Ela sabia. Mas tinha essa esperança de que ia dar tempo de resolver, que ia entrar algum dinheiro extra, que o mês seguinte ia ser mais tranquilo e aí ela conseguia se organizar antes da viagem chegar.

Isso tem nome, é o que a gente chama de viés de otimismo, a tendência de acreditar que as coisas vão se resolver com mais facilidade do que os números realmente mostram. É um viés que todo mundo tem, inclusive eu. Às vezes até dá certo. O problema é quando esse otimismo faz a gente somar um compromisso grande em cima de um orçamento que já não estava fechando.

Estou endividada, devo cortar todos os gastos de uma vez?

Uma coisa que eu falei pra ela, e que repito bastante nos atendimentos, é que a saída não é sair cortando tudo de uma vez. Vejo muita gente que, ao perceber o tamanho do rombo, tenta zerar tudo no mês seguinte: cancela assinatura, corta lazer, promete não gastar mais nada. 

Geralmente não dura. É o mesmo motivo pelo qual dieta radical não funciona, o corte é tão brusco que a pessoa não aguenta, desiste em poucas semanas e volta pro que fazia antes, às vezes gastando ainda mais no efeito rebote. 

O que costuma funcionar de verdade é ir ajustando aos poucos, uma coisa de cada vez, dando tempo pro hábito novo virar rotina antes de mexer na próxima coisa. Um orçamento bom não é aquele que parece perfeito no papel por duas semanas. É aquele que a pessoa consegue sustentar por seis meses. 

Cancelar compra indevida no cartão de crédito

Nesse mesmo atendimento tinha uma situação parecida com uma que minha mãe já passou… a pessoa tentou cancelar um serviço, mas o cancelamento não foi processado direito, veio cobrança de multa, ficou um impasse com a empresa. E enquanto isso não se resolvia, continuava sendo cobrada. 

Dá raiva, dá vontade de largar a mão. Mas são duas coisas separadas. Uma é brigar pelo seu direito, guardar prints, mandar notificação, abrir reclamação, vale a pena mesmo demorando. A outra é não deixar essa pendência travar o resto do orçamento enquanto se resolve. Muita gente mistura as duas frentes e acaba travada nas duas ao mesmo tempo.

E tinha um agravante nesse caso: ela já estava contando com o dinheiro do reembolso pra fechar as contas do mês seguinte. Ou seja, o dinheiro nem tinha entrado ainda, e já tinha destino certo no orçamento dela. Isso é perigoso porque o reembolso da empresa não tem data marcada. Pode vir rápido, pode travar um impasse por meses, principalmente quando já virou uma questão de notificação e reclamação formal. Contar com ele como se fosse "dinheiro certo" pra fechar as contas é montar o orçamento em cima de uma promessa, não de um valor que você realmente tem na mão. Quando isso não cai a tempo, o mês inteiro desmonta. 

Cartão de crédito não é extensão da sua renda!

Um sinal bem claro de que você está usando cartão como renda extra, ao longo do mês, quando você olha a fatura e boa parte das coisas ali são despesas fixas, coisas que você já sabia que iam vencer. Assinatura, seguro, mensalidade. Isso é bem diferente de um imprevisto de verdade, tipo o carro que quebrou do nada. 

Despesa fixa não é imprevisto. Se ela está caindo no cartão todo mês, o problema não é a despesa em si. É que o fluxo de caixa do mês não está fechando, e o cartão está escondendo isso.

Hoje em dia todo pagamento no cartão de crédito é facilitado, seguro, academia, streaming, então não tem como fugir… a ideia é que esses valores já entrem no seu orçamento mensal, e você já deixe separado um valor destinado aqueles serviços, para não acontecer de ficar sempre pagando pelo que já usou e não pelo que ainda vai usar, estar sempre em débito.

Como diminuir a fatura do cartão de crédito?

Eu não vou fingir que existe fórmula mágica, porque não existe. Mas tem uma ordem de raciocínio que ajuda bastante:

1. Some tudo o que está no cartão hoje, o fixo e o parcelado. Não com estimativa de cabeça. Com número de verdade, olhando a fatura. É desconfortável, mas é o primeiro passo, porque você não consegue tomar decisão sobre um problema que você não enxerga o tamanho real.

2. Separe o que é fixo e recorrente do que é parcelamento. Um parcelamento tem prazo pra acabar. Uma despesa fixa recorrente (assinatura, mensalidade) vai continuar entrando todo mês se você não tirar ela do cartão e trazer pra dentro do seu orçamento mensal, ou cortar.

3. Pergunte: essa despesa fixa cabe no meu orçamento sem cartão? Se a resposta for não, o problema não é o cartão. É que essa despesa está grande demais pra sua renda atual, e você precisa cortar esse gasto.

4. Antes de qualquer gasto novo grande, pergunte: isso vai pro cartão porque eu quero, ou porque não tem outro jeito? Essa pergunta simples já filtra muita coisa. Gasto planejado, com dinheiro reservado pra ele, é diferente de gasto empurrado pro futuro só porque hoje não tinha como pagar.

5. Se tiver algo pendente de resolver com uma empresa (reembolso, cancelamento, cobrança indevida), trate como uma frente separada do seu orçamento do mês. Não conte com esse dinheiro entrando antes da hora. Isso é outro erro clássico que merece um post só pra ele.

Conclusão: como ter um relacionamento saudável com o cartão de crédito? 

Confesso que esse atendimento em particular foi complicado. Fui puxando um fio e vinha outro atrás. Cartão estourado, um processo aberto pra brigar por um reembolso que nunca vinha, empréstimo consignado, dinheiro emprestado de mãe e irmã, viagem internacional marcada, festa de aniversário programada, tudo isso ao mesmo tempo, tudo empurrado com a fé de que ia dar certo lá na frente. 

Quando a gente terminou de somar tudo no papel, nem a própria pessoa acreditava no tamanho daquilo. Foi tipo destrinchar um novelo achando que era só um nó e descobrir que era o novelo inteiro embolado.

E o que fica desse tipo de atendimento não é "olha como essa pessoa é desorganizada". É o contrário, dá pra ver claramente como uma decisão pequena aqui, um otimismo ali, um "depois eu resolvo", vão se somando até formar uma bagunça dessas proporções. Cada escolha isolada até fazia sentido no momento. O problema é que ninguém tinha parado pra ver o conjunto.

Também ficou claro que, quando a bola de neve já está desse tamanho, não adianta atacar só uma frente. Não resolve só reorganizar o cartão se ela ainda estava contando com um reembolso incerto pra fechar a conta, ou se está mantendo um compromisso grande (tipo uma viagem) que não cabe no orçamento atual. Tem que olhar pra tudo junto, senão você reorganiza uma coisa, a bagunça vaza por outra.

Se tem uma lição pra levar daqui, é essa: quando a sensação for de que "tá tudo emaranhado e eu nem sei por onde começar", comece exatamente aí, botando tudo no papel ao mesmo tempo. Dívida, compromisso, promessa, tudo. Porque de longe parece impossível desatar. De perto, cada nó tem uma solução. O difícil mesmo é ter coragem de olhar pro novelo inteiro de uma vez.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia




As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay