Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Por Isabel Gonçalves
Samuel trabalha como motorista de aplicativo há mais de nove anos com o mesmo carro. Com os juros altos dos financiamentos tradicionais e o custo crescente dos veículos, ele continuava com seu carro antigo a até tinha pensando em recorrer ao aluguel.
Para tentar mudar esse cenário, o Governo Federal lançou o Move Brasil Táxi e Aplicativos, um programa que oferece condições especiais de financiamento para motoristas profissionais. Mas será que o financiamento realmente vale a pena?
O que é Move Brasil?
O Move Brasil Táxi e Aplicativos é um programa do governo voltado para quem trabalha dirigindo, como motoristas de aplicativo, taxistas e cooperados. Na prática, ele oferece uma linha de financiamento com condições especiais para ajudar esses profissionais a comprar um carro novo.
A ideia é facilitar a troca de veículos mais antigos por modelos mais modernos e eficientes. Para isso, o programa promete juros mais baixos do que os normalmente cobrados pelos financiamentos tradicionais, o que pode reduzir bastante o valor total pago pelo carro ao longo dos anos.
Move Brasil: como funciona o financiamento?
É bem semelhante a de um financiamento tradicional. O motorista escolhe um veículo que esteja dentro das regras do programa e solicita o crédito por meio das instituições financeiras participantes.
Os recursos são repassados pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) aos bancos, que ficam responsáveis por analisar cada pedido e decidir se o financiamento será aprovado ou não. São mais de R$ 30 bilhões disponíveis.
No fim, o programa oferece condições especiais, mas a aprovação continua dependendo da análise de crédito feita pelo banco.
Quais carros são aceitos no Move Brasil?
Como a ideia é “renovar a forta”, o programa está financiando apenas veículos novos que atendam aos critérios de sustentabilidade estabelecidos pelo governo, ou seja, precisa ser flex, elétrico, híbrido ou movido a etanol.
Além disso, o preço do veículo não pode ultrapassar R$ 150 mil e precisa ser de alguma montadora habilitada no programa Mover (Volks, Fiat, Renault, GM, Honda, Hyundai, Nissan, Peugeot, Toyota, BMW, BYD e GWM).
Quais são as condições do financiamento?
Entre os principais diferenciais do Move Brasil estão:
-
Juros reduzidos em comparação ao financiamento tradicional;
-
Possibilidade de parcelamento em até 72 meses;
-
Período de carência de 6 meses para início do pagamento;
-
Financiamento voltado exclusivamente para veículos novos.
Segundo as informações divulgadas pelo governo, as taxas podem chegar a 0,91% ao mês para mulheres e 0,99% ao mês para homens. Para comparação, a taxa para financiamento de veículos pode chegar até 3,47% ao mês de acordo com informações do Banco Central.
Move Brasil: quem pode participar?
A linha “taxi e aplicativos” foi criado especificamente para profissionais que atuam no transporte individual de passageiros. Também existem as linhas para caminhoneiros, entregadores e motoqueiros e máquinas agrícolas. Cada uma tem especificações diferentes.
No caso do Move Brasil Taxi e Aplicativos, quem pode particiar são:
-
Motoristas de aplicativo com cadastro ativo há pelo menos 12 meses na mesma plataforma. Também é necessário ter realizado pelo menos 100 corridas nos últimos 12 meses.
-
Taxistas com licença ativa, regularmente cadastrados nos órgãos competentes e estar em dia com os impostos.
-
Motoristas vinculados a cooperativas de transporte.
Como participar do Move Brasil?
O processo é um pouco diferente ao financiamento de veículo comum. O cadastro é feito pela plataforma oficial do programa. Veja o passo a passo:
-
Acesse o portal do Move Brasil pela internet e clique em "Entre no GOV.BR para se cadastrar".
-
Faça login com sua conta Gov.br informando CPF e senha.
-
Após entrar na plataforma, clique em "Solicitar adesão".
-
Informe sua categoria profissional (taxista, motorista da Uber ou motorista da 99).
-
Leia o termo de consentimento, aceite as condições e confirme a solicitação.
Depois disso, seu cadastro entrará em análise. O governo fará a validação das informações junto à plataforma de corridas (Uber ou 99) ou aos órgãos responsáveis como a Receita Federal e cooperativas.
O resultado costuma ser enviado em até cinco dias úteis. A resposta fica disponível na caixa postal do Gov.br e também pode ser enviada por WhatsApp. Enquanto aguarda, é possível acompanhar o andamento do pedido diretamente na plataforma do programa.
Depois disso, o processo fica mais conhecido por quem já tentou financiar um carro. Basta procurar uma instituição financeira, apresentar a aprovação do Governo. O banco fará a sua análise de crédito tradicional para concretizar o financiamento. Essa segunda etapa começa a valer dia 19/06/2026.
O financiamento é garantido para todos?
Não. Embora o governo ofereça recursos e condições diferenciadas, a decisão final continua nas mãos dos bancos.
Motoristas negativados, score muito baixo ou inadimplentes podem enfrentar dificuldades na hora da análise. Segundo o consultor, Rodnei Bernardini, da RBS Consultoria, especialista no mercado de crédito para veículos, muitas instituições financeiras deverão adotar critérios rigorosos para reduzir o risco de inadimplência. E como resultado, pouca gente deve conseguir o benefício.
Vale lembrar que, como o risco do financiamento continua sendo dos bancos e financeiras, é provável que muitas instituições exijam uma entrada significativa, possivelmente próximo de 30% do valor do veículo. Esse é um ponto que merece atenção porque também pode limitar o acesso ao programa. A pergunta que fica é: quantos motoristas de aplicativo têm hoje R$30 mil disponíveis para dar de entrada em um carro novo?
Move Brasil vale a pena?
Para muitos motoristas, sim. Fizemos uma simulação para comparar um financiamento pelo Move Brasil e um financiamento de veículos tradicional.
Em um veículo de R$100 mil financiado em 72 meses, com taxa de juros de 0,99% ao mês (como prevê o programa) e uma entrada de 30% do valor do veículo, uma pessoa pagaria aproximadamente R$130 mil ao final do contrato.
No financiamento convencional, com as mesmas condições e a taxa de juros de 1,99% ao mês (na Caixa Economica Federal) o valor total pago chegaria a cerca de R$136 mil, de acordo com nosso simulador de financiamento de veículos.
Se compararmos com o valor total do carro, a diferença é de menos de 10%, ou seja, ainda que pouca, a economia existe.
Vale a pena sair do aluguel para financiar?
Depende de cada caso. Muitos profissionais pagam entre R$2.500 e R$3.000 por mês para alugar um veículo. Na nossa simulação, as parcelas do Move Brasil ficariam em R$1.300, abaixo do valor do aluguel.
Pensando exclusivamente no valor, vale a pena. Por outro lado, o aluguel te dá mais liberdade para mudar os planos se for necessário, ou até trocar o modelo com mais frequência. Além disso, no aluguel você não precisa se preocupar com revisão, manutenção, IPVA e nem com a desvalorização do veículo.
Por isso, antes de assinar o contrato, vale a pena comparar. Acesse nosso simulador e veja qual a melhor opção para o seu caso!
Conclusão: juros menores não garantem acesso ao financiamento
À primeira vista, o Move Brasil parece uma ótima oportunidade para motoristas de aplicativo e taxistas. Afinal, conseguir financiar um carro novo pagando menos juros pode gerar uma boa economia ao longo dos anos.
Mas entrar no programa não significa que o financiamento será aprovado. A aprovação continua dependendo da análise dos bancos e boa parte dos trabalhadores enfrenta dificuldades financeiras, mantém dívidas em aberto ou possui score de crédito baixo.
E é justamente aí que mora o problema. Muitos motoristas trabalham endividados, alugam veículos porque não conseguiram crédito no passado ou enfrentam dificuldades para manter o nome limpo. Ou seja, quem mais precisa da ajuda pode acabar ficando de fora.
Na prática, o programa tende a beneficiar principalmente quem já tem uma situação financeira mais organizada e boas chances de aprovação em qualquer financiamento. Para os demais, as portas podem continuar fechadas.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Porque, no fim das contas, juros baixos ajudam. Mas eles não fazem milagre quando o banco diz não.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
