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Musculoso, o homem segurava a moça com tamanha segurança que tornava a queda uma hipótese improvável. As pessoas acompanhavam a cena entre admiradas e temerosas de que, por um deslize, uma falha banal e completamente evitável, ela escapasse das mãos dele e viesse ter ao piso com toda a aparente fragilidade de seu corpo. A mulher, pequena e esguia, iniciou o balanço lançando as pernas adiante. Foi e voltou com tanta energia que ajustou o corpo em linha paralela ao chão. De repente, lançou-se no ar em pirueta, mas antes que a gravidade a convidasse ao encontro segurou-se de novo nas mãos dele. E foi como amálgama de secagem imediata: um corpo em seguimento ao outro, mera ilusão ótica a momentânea separação. A plateia do teatro em Shangai aplaudiu comedida, com receio de que o barulho das palmas atravessasse, como pedra lançada, a absoluta concentração da dupla.
Havia a tradicional emoção que acompanha os espetáculos de acrobacia, mas algo mais entrava pelos nossos olhos, éter diverso fluía pela respiração. Pairava no ar, circulando sobre as cabeças, um sentimento difícil de descrever. Uma comoção banhando-se delicadamente enquanto a adrenalina fazia elétricas estrelas no peito de cada um. Dois enredos simultâneos e entrelaçados, onde a tradição separa espaços para um de cada vez – suspense e poesia, uma máscara de dor e outra de encantamento. O que nascia ali tão diferente?
Como o homem não usava toda a potência muscular de seus braços, seus movimentos tinham uma suavidade improvável. O corpo da moça era pétala que circulava pelas mãos dele, rodopiava entre seus braços, deixava-se cair para em seguida pousar, flutuar, desabrochar. A força excedia e desta potência brotava volta e meia uma flor. Em lugar de músculos retesados em precisa ação que antecede e evita no último instante a queda, havia um ritmo, um balé de ponta-cabeça. Revirava toda a lógica que desde tempos muito antigos captura a atenção do público pela iminência do sangue em jorro espetacular, pelo som quase presente de ossos que se partem. Era risco e doçura em valsa peculiar. Música suave que sobressai à apoteose da orquestra.
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Do meu lugar, observava a força bruta envolver a parceira, protegê-la e facilitar seus movimentos. Uma força visivelmente excessiva em plena ação para que não faltasse suavidade ao gesto e, em lugar do tranco, o corpo dela encontrasse mãos acolhedoras e confiáveis. A moça, na fluência de suas manobras, era verso declamado em sussurro, generosamente dedicada a abrir a janela por onde pudéssemos observar o poema sendo escrito. Rabiscavam no ar versos sobre a flor rara que brota no meio da pedra bruta. Uma beleza ainda mais bela porque nasce do improvável. Deslumbrante alegoria! Como se no meio da insanidade dos nossos dias surgisse em nós e de nós, repentinamente, um profundo desejo de reunião.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
